Há gente que mora na rua
Tinha muito tempo ainda. Havia
chegado bem cedo e dispunha de longos minutos de espera, pelo que resolvi virar
para uma rua que ainda não havia percorrido.
Altas e frondosas árvores
ladeavam o asfalto por onde passavam viaturas em busca do tráfego infernal da
avenida central. Eu caminhava calmamente desfrutando da sombra e do afastamento
do buliço neurótico da turba consumista.
A ruela desembocava num praça
estreita e longa, ajardinada e com um lago onde suponho já terem existido patos
ou outras espécies de aves aquáticas. Era um local acolhedor e tranquilo,
dentro da cidade febril e neurótica. Do lado em que eu caminhava estendia-se um
edifício de estilo neo-clássico, com um só piso, mas não deixando contudo de
ser imponente. Caminhei ao longo dele apreciando cada detalhe. Sentia a paz do
lugar me invadir e sossegar o corpo e o espírito, inquietos pelo trepidar
urbano.
Chegado ao fundo da praça,
resolvi retornar pelo mesmo caminho, pois a hora do meu compromisso aproximava-se.
Ao passar de novo pelo lago, deparei-me com uma cena que me fez parar, para
observar discretamente. Um jovem sem-abrigo, semi-nu, apenas vestindo uma
bermuda e descalço, ensaboava-se na beira do lago. Bastante espuma na cabeça,
cujo cabelo ele esfregava com vigor. Depois pegou um baldão que tinha ao seu
lado, encheu-o no lago e despejou a água amarelada sobre si.
Retirado todo o sabão e espuma
do corpo, o jovem tornou a encher o baldão e voltando-se, caminhou até uma
camisa que estava estendida sobre uma laje perto. Despejou parte da água sobre
ela, ajoelhou-se e com o sabão com que se tinha banhado, começou a esfregar a
camisa.
As suas costas molhadas reluziam
ao sol da tarde.
