“Escrever é mais importante que a nossa própria vida.”*
Eu passo, arrastando atrás o manto macio e aveludado da solidão. Fiel companheira.
Tudo parou! Por vezes a vida deixa de acontecer e o que se passa é uma agonia continuada dum quotidiano insípido e enfadonho de inútil e sem propósito. Uma garfada de arroz, uma xícara de café, um assistir os noticiários com as mesmas crises financeiras, o mesmo desmascarar inconsequente de políticos corruptos, as mesmas guerras absurdas... e a mesma insatisfação de sempre. A mesma frustração, que corrói e mina o ânimo, a vontade.
“Demoro muito a entrar, depois fico dentro daquela lógica e tenho muita dificuldade em viver. Tenho muita dificuldade em viver a vida comum enquanto estou a escrever. É viver uma outra coerência, em que as coisas são outras, os personagens são outros, que não admite interrupções, interferências, em que sair e entrar desse mundo não é fácil, é muito doloroso, até. ... Ninguém nos visita. Não há Deus nenhum que nos venha visitar. Não é Apolo, não são ninfas nenhumas, nem seres mágicos. Somos nós! É uma capacidade de concentração, que se tem.”*
Eu queria que tudo parasse! Que o silêncio se fizesse em redor. Que a ausência de mundo fosse a paz necessária. Que o silêncio fosse a folha em branco esperando o nascimento dos caracteres e das ideias ganhando expressão e formando o texto.
“Estou convencida que vale a pena trocar tudo para se deixar uma página bem escrita.”*
Nota: Transcrições (*) em itálico são excertos duma entrevista dada por Lídia Jorge a que assisti no blog “As Cores da Vida” (link).