16 de Setembro, dia do meu aniversário. Meu Irmão-de-Alma, o Luis, deu-me opção de oferta de aniversário, um ingresso para o espectáculo dos Mercury Rev em Lisboa. Eu optei pelos Sigur Rós.
E lá estivemos os dois hoje, 11 de Novembro, assistindo ao show dos quatro islandeses no Campo Pequeno.
Final de tarde outonal, já com a noite vestindo tudo de sombras e negro. A cidade retirava-se apressada para as periferias, após mais um dia de trabalho cumprido.
Eu chegava ao monumental edifício, iluminado pelas luzes feéricas duma urbe moderna e capitalista.
Levava comigo apenas a expectativa de assistir a mais um espectáculo musical. Tão somente.
Após várias vindas da banda a Portugal era a primeira vez que eu concretizava a vontade de os ver tocando ao vivo.
O público ia chegando sem pressa, tranquilo. Dentro do vasto recinto a atmosfera ia-se moldando para o ritual sonoro que se aproximava. E quando tudo se apagou, menos umas velas acesas e dispersas pelo palco...
A música feita magia!
Num palco vestido de negro quatro criaturas encarnando a música, faziam de cada nota, de cada acorde uma metamorfose sonora encantatória, desabrochando perante nós em deleite e pureza.
A voz de falsete pueril, com o seu timbre tão peculiar, de Jónsi Bigirsson, sussurrava e entoava frases numa língua imcompreensível, mas que todos entendiam. Uma voz familiar, por todos identificada, de tão desbragadamente infantil; a voz da criança adormecida dentro de nós.
Voz, mais que cantando, dançando em enleios planantes com as enebriantes sonoridades que Jónsi libertava da sua guitarra eléctrica, ao tocá-la com um arco de violoncelo (o seu estilo muito pessoal).
O cenário enchia-se de cor e formas. Sombras e imagens diluídas na intenção de mostrar sem desvendar; ou o inverso.
Poderia ficar aqui desfiando linhas de prosa ou verso, em longos arroubos de inspiração, mas nunca conseguiria descrever o êxtase de tão singular ritual.
Orgástico! Espiritualmente orgástico!
Bem-hajas, bom Luis, por estes momentos inesquecíveis.