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terça-feira, 23 de março de 2010

NÓS, OS OUTROS

Muitos jovens, inteligentes, interessados, criativos, abandonam a escola sem terem terminado algum curso que estaria perfeitamente ao seu alcance. Porquê?

A frequência dum estabelecimento de ensino pode ser algo deveras traumatizante. A aspereza do sistema que impõe metas que para os mais novos fazem muito pouco sentido, ou sentido nenhum. A brutalidade dos ritmos de horários que nada têm de natural. A opressão a vários níveis, que castram a criança e o jovem em busca duma iniciação ao relacionamento social. Enfim, a própria violência crua dos seus congéneres juvenis, que os mais sensíveis acabam por não conseguir evitar e suportar.

O sistema educativo não está pensado para a formação de seres humanos naturais, mas para a formatação de elementos integrantes dum sistema produtivo/consumidor. E aqueles que acabam por se verem excluídos dessa formatação... bem, esses são os eternos desenquadrados da vida. Muitos deles talentosas almas incapazes de entenderem, desenvolverem, implementarem e divulgarem os invulgares dons que entorpecidamente esperam a hora de desabrochar. Hora essa que na quase totalidade dos casos nunca chega, ou chega perante uma plateia incapaz de reconhecer a sua utilidade e genialidade.

E são olhados com desconfiança e o inevitável preconceito. Apelidados de todos os defeitos, que não o são. Desde tolos, vadios, inúteis, preguiçosos, ..., todos os epítetos mais depreciativos lhes são atribuídos. E levam toda uma vida procurando um lugar que sempre lhes será negado; apenas porque não são como os demais. E não o são pois não conseguem deixar de ser humanos para passarem a ser umas coisas amestradas no sistema produtivo.