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sábado, 16 de fevereiro de 2013

O TOQUE



Perdemos o toque. Perdemos a capacidade de comunicar pelo toque.

Civilidade é domesticação, dominação, subjugação.

Como humanos somos seres por essência comunicativos. Somos criaturas gregárias. A falta de comunicação debilita o ser humano na sua identidade e expressão.

Comunicamos pelos sentidos. Com todos eles. E através de todos eles. Se algum for excluído ficamos incompletos.

Puritanismos patéticos. Moralismos anti-natura. Preceitos castradores da natureza bio-emocional humana. Preconceitos aberrantes. Deformação de padrões e valores. Tudo foi utilizado para sufocar o nosso apelo instintivo ao contacto directo; pele na pele.

Religiões ínvias amputaram o toque através duma argumentação de pecado e condenação por luxúria. O medo do apelo das emoções primordiais.

Atrofiados tentamos o equilíbrio dum ser que nunca poderá ser.

A lascívia faz parte dos nossos impulsos mais profundos. O apelo ao prazer, pela necessidade dele para nos reequilibrarmos emocionalmente e nos mantermos saudáveis. Activos. Felizes.

O anseio pelas multidões. O roçar dos corpos agitados. A libertação do ser indiscreto que habita em nós. O partilhar de sensações. O libertar de emoções. O explodir da electroquímica do cérebro. O êxtase de vogar no mar proibido de hormonas inspiradoras de liberdade e satisfação. Prazer, prazer, prazer.

Comunicamos através de todos os sentidos, se algum for excluído ficamos incompletos.


Nota: Banda sonora sugerida, "I Have The Touch" de Peter Gabriel.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O HOMEM E A CIDADE

50% da população mundial vive em cidades. Grandes metrópoles que tendem a crescer ainda mais, com mais gente chegando a cada dia. Espera-se que num futuro próximo 75% da população mundial esteja concentrada (melhor diria apinhada) em metrópoles desmesuradas.

Isso corresponde a uma falsa ideia de progresso. A ideia do quanto maior melhor é uma falácia dum tremendo complexo de inferioridade. Uma megalópole não proporciona melhores condições de vida aos seus habitantes; pelo menos à sua maioria, considerando que apenas uma minoria privilegiada usufrui de todos os recursos por ela disponibilizados.

As nossas cidades têm-se caracterizado por serem grandes concentrações de betão e asfalto, sem lugar algum para a Natureza. E é bom não esquecer que nós humanos somos parte integrante do sistema natural do planeta. Fomos nós que criámos o mundo artificial em que vivemos e não o inverso. Por mais urbanos que nos queiramos definir nunca deixaremos de ser elementos bio-culturais dum bioma maior e universal.

Se a tendência de crescimento das cidades é inevitável (apenas porque interesses económicos maiores assim pretendem e definem) ao menos que se tornem esses ciclópicos aglomerados mais humanos e próximos do que é natural.

Não basta ter pequenas ilhas de verde espalhadas no meio de imensos mares de betão. É necessário que o natural faça parte do quotidiano de todos. Não basta providenciar empregos para todos. É necessário que todos tenham acesso ao ócio e lazer. Não basta que cada um tenha um televisor em casa. É necessário que todos tenham acesso a uma cultura de qualidade. Não basta construir hospitais e centros de saúde. É necessário que todos tenham direito à saúde e a uma assistência clínica de qualidade. Não basta que todos tenham um automóvel à porta. É necessário que todos se possam mover com facilidade, conforto e rapidez por todo o tecido urbano. E acima de tudo é necessário que todos tenham igual acesso ao respeito e à dignidade.

A cidade é uma criação humana para humanos viverem. Então, humanizemos as cidades!

terça-feira, 23 de março de 2010

NÓS, OS OUTROS

Muitos jovens, inteligentes, interessados, criativos, abandonam a escola sem terem terminado algum curso que estaria perfeitamente ao seu alcance. Porquê?

A frequência dum estabelecimento de ensino pode ser algo deveras traumatizante. A aspereza do sistema que impõe metas que para os mais novos fazem muito pouco sentido, ou sentido nenhum. A brutalidade dos ritmos de horários que nada têm de natural. A opressão a vários níveis, que castram a criança e o jovem em busca duma iniciação ao relacionamento social. Enfim, a própria violência crua dos seus congéneres juvenis, que os mais sensíveis acabam por não conseguir evitar e suportar.

O sistema educativo não está pensado para a formação de seres humanos naturais, mas para a formatação de elementos integrantes dum sistema produtivo/consumidor. E aqueles que acabam por se verem excluídos dessa formatação... bem, esses são os eternos desenquadrados da vida. Muitos deles talentosas almas incapazes de entenderem, desenvolverem, implementarem e divulgarem os invulgares dons que entorpecidamente esperam a hora de desabrochar. Hora essa que na quase totalidade dos casos nunca chega, ou chega perante uma plateia incapaz de reconhecer a sua utilidade e genialidade.

E são olhados com desconfiança e o inevitável preconceito. Apelidados de todos os defeitos, que não o são. Desde tolos, vadios, inúteis, preguiçosos, ..., todos os epítetos mais depreciativos lhes são atribuídos. E levam toda uma vida procurando um lugar que sempre lhes será negado; apenas porque não são como os demais. E não o são pois não conseguem deixar de ser humanos para passarem a ser umas coisas amestradas no sistema produtivo.