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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

O MENINO E O PAPAGAIO


Olhando a foto...

O menino sobre a ponte segura o fio que prende o papagaio esvoaçando no ar.

A ponte eleva-se acima dum córrego imundo e contaminado, ao lado do qual se estende uma terraplanagem, que deixa adivinhar mais uma via rodoviária de circulação rápida, para escoar a ansiedade dos moradores nervosos das comunidades que se amontoam nas margens.

Dum lado e doutro do veio central, composto pelo menino e a terra barrenta, apinham-se os barracos favelados, das gentes que sustentam o mundo sobranceiro dos que vivem nos edifícios altos; arrogantes na sua ostentação de supremacia de minoria endinheirada.

Ao fundo uma torre esguia ergue-se agoirenta. Apontando as negras nuvens, lembra as sinistras chaminés fabris que glorificam a revolução industrial.

O menino, com os seus trajes coloridos e o relógio de plástico no pulso, pertence a esse submundo dos que são combustível para alimentar a paisagem capitalista. Ele vive por aí, algures, num desses barracos, na favela, na indigência disfarçada dos novos-escravos.

Foto: © Florêncio Mesquita, Manaus, AM

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

MOBILIDADE URBANA II



As cidades são tudo menos um ambiente humanamente saudável.

Viver segundo interesses economicistas não é saudável. Numa sociedade competitiva é fundamental chegar primeiro, seja onde e ao que for. Isso traz urgência para todos criando um modo febril de estar. Todos se esganam para ficar adiante dos demais. Assim a mobilidade urbana se torna caótica, pois cada um pensa apenas na sua vantagem. E isso multiplicado por milhares, quando não mesmo por milhões, torna-se um problema grave.

Descentralização, desmonopolização são dois vocábulos fundamentais na oferta de qualidade de vida.

O problema da mobilidade passa, entre muitos outros vectores, pelo modo de vida pendular desta sociedade produtora/consumista. Tudo seria mais facilitado com a liberalização e dispersão de horários, tanto de serviços como de comércio. A visão imperialista da estruturação vertical da sociedade e do seu modo de vida leva a uma centralização em função dos benefícios financeiros e não do bem-estar humano.

Com horários alargados do funcionamento empresarial e menores turnos laborais, recorrendo para isso a um aumento de número de funcionários – sem que isso representasse perda de salários para os mesmos – seria possível distribuir os utentes de transportes urbanos sem o doentio vai-vem pendular superlotado dos horários de ponta. Além de assim rentabilizar as próprias carreiras de transportes, algumas das quais só compensam financeiramente a sua existência nesse sufoco de afluências periódicas diárias, mas com grandes incómodos dos utentes que recebem um tratamento de mercadoria; transportados em condições indignas e de risco físico.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

MOBILIDADE URBANA I




Mobilidade urbana é o grande tema da actualidade, num mundo cada vez mais citadino e menos rural. A elevada concentração populacional cria enormes problemas na vida das cidades, muitas das vezes pela falta de políticas correctas e corajosas de organização e gestão dos espaços, dos modos de vida e locomoção. A situação é ainda mais grave quando os órgãos de poder e decisão se encontram manietados por grandes interesses corporativos e financeiros.

A coragem de organizar o espaço público em função dos interesses gerais, acima dos benefícios particulares, é algo temerário e impensável para os políticos de hoje. Afinal quem controla e dirige os destinos da política e das nações nos nossos dias são os grandes interesses corporativos e económicos.

A definição do espaço urbano em função do ser humano é imprescindível para o conceito de cidade saudável. As cidades actuais herdaram centros arcaicos inapropriados para os modos de vida de hoje e continuam caindo em erros de urbanismo, muitas vezes ditados por interesses empresariais e corporativos. 

Os espaços urbanos não podem ser zonas estanques divididas em áreas de interesses e conveniências económicas particulares. Todo o cidadão tem de ter no seu raio de acção todo o tipo de recursos que necessite para a vivência do seu quotidiano. Ele tem de ter acesso pelos seus próprios meios físicos naturais a partir da sua residência, a tudo o que necessita para viver; educação, lazer, trabalho, saúde, provimentos (comércio e serviços).

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

NÃO É



Quando vi esta foto lembrei do bairro de Boa Viagem, no Recife. Mas nem as montanhas ao fundo são Olinda, nem a avenida de Boa Viagem é tão sinuosa, muito menos há embarcações nas praia de Boa Viagem. Apenas os arranha-céus lembram alguma semelhança.

Recife é uma cidade que nasceu dum porto marítimo mas vive de costas para o mar. Ela não teve origem no estabelecimento de nenhum pequeno núcleo humano pesqueiro, que depois se tenha desenvolvido. A cidade formou-se a partir do porto que a vizinha Olinda precisava para escoar o açúcar produzido nas plantações do interior, assim como da necessidade de importação de bens para satisfação duma classe de proprietários e produtores cada vez mais abastada e sequiosa de luxos.

Embora o porto do Recife fique junto ao centro histórico da cidade, desse mesmo centro não se consegue avistar nenhum navio. A arquitectura da cidade barra o acesso ao mar. Só no passado as grandes casas de famílias abastadas, da periferia rural, eram voltadas para os rios e afluentes, por estes serem usados como vias de acesso. Mas com a expansão urbana e a introdução de vias de comunicação e transporte terrestres esse vínculo perdeu-se e foi ignorado.

A cidade vive de costas para o mar que a bordeja. Para os recifenses, o mar serve apenas para ir chapinhar em veraneios balneares. Esta indiferença nota-se até na gastronomia, onde predominam os pratos de carne e de tradição rural sendo o peixe quase completamente ausente. 

Mas como toda a regra tem uma excepção, salva-se o bairro de Brasília Teimosa. A população que obstinadamente o fundou, viu no mar um recurso de subsistência. Aí situam-se restaurantes para quem seja amante dos produtos do mar: peixes e mariscos.

Pela observação do estilo de vida e tradições da população recifense  digo que Recife não é uma cidade marítima, mas sim uma cidade de interior implantada na orla litoral.



Nota: Não me perguntem que cidade é a da foto ao cimo, pois não sei. Apanhei a imagem na internet e serve bem os meus propósitos. A de baixo sim, é Recife.

Recife

sexta-feira, 25 de maio de 2012

CIGANOS E FAVELA



Estava frio e húmido. O vento havia espalhado folhas e ramagens pelas ruas imundas de lama e vendedores ambulantes, como sempre barulhentos e arrastando consigo toda a variedade de odores, embrulhados em roupagens bizarras e coloridas. Seguíamos em busca. Eu não sabia o endereço, mas confiava que lá chegaríamos.

Entre muros e vielas empedradas, subimos ao alto dum pequeno morro, donde se podia ver a cidade por cima e talvez pudesse encontrar alguma orientação. Sob o céu cinzento e nublado a paisagem se assemelhava mais a uma favela desordenada e caótica.

Fui admoestado por uma criança que o termo favela era incorrecto e proibido por lei; o termo adequado seria comunidade. As coisas que ensinam às crianças e as hipocrisias com que os governantes desmandam as nações. Favela lembra favo, colmeia, abelhas, mel. Mel é tão bom... Fluido, escorrendo doce. Imperecível.

Descemos para o emaranhado de ruas ignotas e ávidas de tráfego e gentes. Debaixo de toldos e sobre bancas, ofereciam-se mercadorias, apresentadas por sorrisos, alardes de pregão e convites insistentes, aborrecedores. Dum mostruário peguei um agasalho grande, fofo, branco-pérola, com gola de pelagem longa, astracã. Rodeio por mim e levei-o no braço.

Dentre bandos dispersos e saídos de trás duma tenda de bugigangas um grupo de belos ciganos se nos juntou. Indaguei-os sobre as suas intenções. Nunca é demais uma suspeita; ou deverei dizer uma cautela? Talvez a criança lá de cima me saiba indicar o que é correcto para os governantes. Mas ciganos, podem ser belos e sedutores – Ah isso eles são mesmo! Tanto uma como a outra. A arte de sedução é a sua cartilha de vida – mas da suspeita nunca se livram. A história carrega as suas lembranças e o povo tem memória dura de esquecer.

Espreitando entre rostos desconhecidos, portas entreabertas, muros em ruína duvidosa e ruas de destino incerto, prosseguimos até nos aproximarmos da margem do que parecia ser um rio tão largo como o mar. Dos cais ferrugentos e meio destruídos não partiam nem chegavam barcos. Limos e lixo rolavam entre calhaus, uns maiores outro menores, espalhados pela praia. Os ciganos sempre nos acompanhando, belos, simpáticos e servis. Mas de nada valia continuarmos ali, num porto sem partida e sem rumo.

De novo na praça central. Rostos sucedem-se em esgares de sorriso e espanto. Viciosos, lascivos, boçais. Olhei-te e exclamei: “Eles levaram o meu agasalho!” Olhámos em redor e os ciganos não estavam mais lá. Tudo parecia fugir para um horizonte que se fechava em nuvens e chuva. Em redor. Ao redor. E, olhando no teu olhar inquiridor, passei a mão pelo peito e suspirei: “Mas tenho ainda o meu casaco de pelica castanho...” E acariciei levemente o suave toque da camurça.

Nota: A ilustração é a pintura "Bahia" de Bob Dylan. Sim o tal que canta. Ele também pinta.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

VALTER



Parado na esquina, da movimentada avenida central com uma pequena rua lateral. Detenho-me por alguns momentos observando apenas o buliço de gentes e viaturas. Sem rostos, sem destinos, apenas vultos que se cruzam no rugido da urgência alienada.

Uma voz corporiza-se à minha frente, num rosto que me interroga por trás duns óculos escuros: - Desculpe! O Senhor chama-se Valter?

O meu olhar desce por um braço que segura um rosto feminino, divertido com a situação.

- Não. – Respondo num sorriso simpático e feliz por alguém, naquele tumulto, ter-se identificado com outro ser humano.

- Desculpe, - insiste ele e com simpatia, explica-se - mas tenho um amigo que é exactamente a sua cara e a sua fisionomia. Até ia para lhe dizer: “Cara, tu não mudas, nem envelheces! Estás sempre na mesma!”

E com o acender do semáforo verde, o encontro diluiu-se no calor da tarde.


Nota: O modelo da foto é o português Valter Carvalho. Desconheço o autor da mesma.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

DOIS HOMENS



A mesma tarde. A mesma rua. O mesmo calor. A cidade repete-se na sua exaustão ad-infinitum.

Eu prossigo a minha caminhada calma. A contra-tempo dos restantes transeuntes que se apressam febrilmente. O objectivo é o mesmo para todos: continuar sobrevivendo. Mas já nem filosofo a respeito. Deixo que o mundo corra, enquanto eu continuo observando da janela do meu vagão.

Passo a passo, por vezes parando aqui e além, sempre olhando em redor. Cada rosto, cada corpo, cada ser conta uma história. Cada alma traz em si um mundo, um universo.

Por mim passam, em passo animado e solto, dois homens com a tez bronzeada de quem vive na rua. Vestem com a informalidade e mau gosto dos vendedores ambulantes, que pululam pelo centro caótico de muvuca* e alarido. Mas o seu ar descomprometido e fanfarrão indica logo que não o são. Embora humildes, as roupas são cuidadas e novas, assim como os corpos mostram o brilho de quem se cuida e quer marcar status. São robustos, mas esbeltos e a sua virilidade é cativante. Fico seduzido e atento. Divirto-me com o aflorar da libido disparando testosterona por todos os poros. E tenho a certeza que se alguém olha-se nos meus olhos com atenção, veria um brilho de lascívia os iluminando.

De repente param. Um deles tira uma câmara digital do bolso e, encobertos por um camião estacionado começam a fotografar a fachada e a passagem para as traseiras, duma sucursal bancária no outro lado da rua.

Resta ficar atento aos noticiários, nas próximas semanas, sobre a notícia de mais um assalto a um banco.


Nota: *muvuca = grupo de pessoas fazendo bagunça, desorganização, confusão.

terça-feira, 10 de abril de 2012

OUSADIA


Hoje, eu esperava que o semáforo mudasse, para poder atravessar a rua, num movimentadíssimo cruzamento do centro da cidade. Tinha os fones nos ouvidos e num volume de som razoavelmente elevado para poder superar os roncos do trânsito. Mas algo interferia com a música. Eram notas musicais que eu sabia não fazerem parte daquela partitura, por mim mais que conhecida. Ora se ouviam, ora se calavam. Olhei em volta e não vi o que pudesse causar tal interferência. Pensei ser do aparelho reprodutor de som; mas nada indicava que fosse avaria. Até que olhei para cima e um pequeno passarinho amarelo-esverdeado (da ponta do bico à ponta da cauda não teria sequer 8cm), empoleirado num fio de electricidade que cruzava sobre a estrada, piava como se estivesse em plena floresta.

domingo, 24 de outubro de 2010

QUE CIDADE?

Como hoje é Domingo, logo tempo de lazer, a minha proposta é uma adivinha. Que cidade é essa da foto?
Em breve irei publicar mais fotos dela e então direi qual é aos que não acertarem. Entretanto posso ajudar dizendo que se situa no Hemisfério Norte, ao Norte do Trópico de Câncer, num país que é frequentemente mencionado nos noticiários de todo mundo.
Como se pode ver pela tonalidade de algumas das árvores a foto foi tirada no Outono.
Fico à espera das vossas respostas. E para todos votos dum bom Domingo e que seja uma óptima semana esta que se inicia.

Então, qual é a cidade?

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O HOMEM E A CIDADE

50% da população mundial vive em cidades. Grandes metrópoles que tendem a crescer ainda mais, com mais gente chegando a cada dia. Espera-se que num futuro próximo 75% da população mundial esteja concentrada (melhor diria apinhada) em metrópoles desmesuradas.

Isso corresponde a uma falsa ideia de progresso. A ideia do quanto maior melhor é uma falácia dum tremendo complexo de inferioridade. Uma megalópole não proporciona melhores condições de vida aos seus habitantes; pelo menos à sua maioria, considerando que apenas uma minoria privilegiada usufrui de todos os recursos por ela disponibilizados.

As nossas cidades têm-se caracterizado por serem grandes concentrações de betão e asfalto, sem lugar algum para a Natureza. E é bom não esquecer que nós humanos somos parte integrante do sistema natural do planeta. Fomos nós que criámos o mundo artificial em que vivemos e não o inverso. Por mais urbanos que nos queiramos definir nunca deixaremos de ser elementos bio-culturais dum bioma maior e universal.

Se a tendência de crescimento das cidades é inevitável (apenas porque interesses económicos maiores assim pretendem e definem) ao menos que se tornem esses ciclópicos aglomerados mais humanos e próximos do que é natural.

Não basta ter pequenas ilhas de verde espalhadas no meio de imensos mares de betão. É necessário que o natural faça parte do quotidiano de todos. Não basta providenciar empregos para todos. É necessário que todos tenham acesso ao ócio e lazer. Não basta que cada um tenha um televisor em casa. É necessário que todos tenham acesso a uma cultura de qualidade. Não basta construir hospitais e centros de saúde. É necessário que todos tenham direito à saúde e a uma assistência clínica de qualidade. Não basta que todos tenham um automóvel à porta. É necessário que todos se possam mover com facilidade, conforto e rapidez por todo o tecido urbano. E acima de tudo é necessário que todos tenham igual acesso ao respeito e à dignidade.

A cidade é uma criação humana para humanos viverem. Então, humanizemos as cidades!