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sexta-feira, 25 de maio de 2012

CIGANOS E FAVELA



Estava frio e húmido. O vento havia espalhado folhas e ramagens pelas ruas imundas de lama e vendedores ambulantes, como sempre barulhentos e arrastando consigo toda a variedade de odores, embrulhados em roupagens bizarras e coloridas. Seguíamos em busca. Eu não sabia o endereço, mas confiava que lá chegaríamos.

Entre muros e vielas empedradas, subimos ao alto dum pequeno morro, donde se podia ver a cidade por cima e talvez pudesse encontrar alguma orientação. Sob o céu cinzento e nublado a paisagem se assemelhava mais a uma favela desordenada e caótica.

Fui admoestado por uma criança que o termo favela era incorrecto e proibido por lei; o termo adequado seria comunidade. As coisas que ensinam às crianças e as hipocrisias com que os governantes desmandam as nações. Favela lembra favo, colmeia, abelhas, mel. Mel é tão bom... Fluido, escorrendo doce. Imperecível.

Descemos para o emaranhado de ruas ignotas e ávidas de tráfego e gentes. Debaixo de toldos e sobre bancas, ofereciam-se mercadorias, apresentadas por sorrisos, alardes de pregão e convites insistentes, aborrecedores. Dum mostruário peguei um agasalho grande, fofo, branco-pérola, com gola de pelagem longa, astracã. Rodeio por mim e levei-o no braço.

Dentre bandos dispersos e saídos de trás duma tenda de bugigangas um grupo de belos ciganos se nos juntou. Indaguei-os sobre as suas intenções. Nunca é demais uma suspeita; ou deverei dizer uma cautela? Talvez a criança lá de cima me saiba indicar o que é correcto para os governantes. Mas ciganos, podem ser belos e sedutores – Ah isso eles são mesmo! Tanto uma como a outra. A arte de sedução é a sua cartilha de vida – mas da suspeita nunca se livram. A história carrega as suas lembranças e o povo tem memória dura de esquecer.

Espreitando entre rostos desconhecidos, portas entreabertas, muros em ruína duvidosa e ruas de destino incerto, prosseguimos até nos aproximarmos da margem do que parecia ser um rio tão largo como o mar. Dos cais ferrugentos e meio destruídos não partiam nem chegavam barcos. Limos e lixo rolavam entre calhaus, uns maiores outro menores, espalhados pela praia. Os ciganos sempre nos acompanhando, belos, simpáticos e servis. Mas de nada valia continuarmos ali, num porto sem partida e sem rumo.

De novo na praça central. Rostos sucedem-se em esgares de sorriso e espanto. Viciosos, lascivos, boçais. Olhei-te e exclamei: “Eles levaram o meu agasalho!” Olhámos em redor e os ciganos não estavam mais lá. Tudo parecia fugir para um horizonte que se fechava em nuvens e chuva. Em redor. Ao redor. E, olhando no teu olhar inquiridor, passei a mão pelo peito e suspirei: “Mas tenho ainda o meu casaco de pelica castanho...” E acariciei levemente o suave toque da camurça.

Nota: A ilustração é a pintura "Bahia" de Bob Dylan. Sim o tal que canta. Ele também pinta.