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domingo, 23 de outubro de 2016

ENGRENAGEM


O nosso mundo é uma engrenagem de consumo. Tudo na nossa presente civilização gira em torno do binário produção/consumo. Criam a ideia duma sociedade pró-hedonista mas tal não passa duma imensa falácia. Somos moldados e formados para encaixarmos num lugar da cadeia produtiva como escravos domesticados. Progressivamente perdemos o livre-arbítrio e a vontade-própria. É-nos negada a auto-determinação e o nosso querer tem de corresponder ao estipulado na lei e nas regras do jogo da grande-empresa em que se tornou o mundo. 
Fomos absorvidos pelo grande sistema-económico, que a todos devora e trucida desde a mais tenra idade. A auto-expressão é negada. O que se vê por aí são comportamentos de macaco-de-imitação a que se convencionou chamar de moda, ou mais elitistamente de “fashion”. Contribuindo esses comportamentos padronizados para aumentar os índices de produção/consumo e dando prosseguimento à alienação continuada das gentes que se iludem achando ser felicidade o que não passa dum mero prazer supérfluo e momentâneo.



Nota: Imagens recolhidas na internet com o Google

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O TOQUE



Perdemos o toque. Perdemos a capacidade de comunicar pelo toque.

Civilidade é domesticação, dominação, subjugação.

Como humanos somos seres por essência comunicativos. Somos criaturas gregárias. A falta de comunicação debilita o ser humano na sua identidade e expressão.

Comunicamos pelos sentidos. Com todos eles. E através de todos eles. Se algum for excluído ficamos incompletos.

Puritanismos patéticos. Moralismos anti-natura. Preceitos castradores da natureza bio-emocional humana. Preconceitos aberrantes. Deformação de padrões e valores. Tudo foi utilizado para sufocar o nosso apelo instintivo ao contacto directo; pele na pele.

Religiões ínvias amputaram o toque através duma argumentação de pecado e condenação por luxúria. O medo do apelo das emoções primordiais.

Atrofiados tentamos o equilíbrio dum ser que nunca poderá ser.

A lascívia faz parte dos nossos impulsos mais profundos. O apelo ao prazer, pela necessidade dele para nos reequilibrarmos emocionalmente e nos mantermos saudáveis. Activos. Felizes.

O anseio pelas multidões. O roçar dos corpos agitados. A libertação do ser indiscreto que habita em nós. O partilhar de sensações. O libertar de emoções. O explodir da electroquímica do cérebro. O êxtase de vogar no mar proibido de hormonas inspiradoras de liberdade e satisfação. Prazer, prazer, prazer.

Comunicamos através de todos os sentidos, se algum for excluído ficamos incompletos.


Nota: Banda sonora sugerida, "I Have The Touch" de Peter Gabriel.

sábado, 16 de abril de 2011

DOR

A dor... que seja dor tamanha, que redima meus paraísos em sofrimento e êxtases! Ámen!

A dor sempre fascinou a alma humana. Encanta e atrai, como qualquer outro desejo proibido pelas puritanas mentes dogmáticas, que perversamente se alimentam do mal-estar alheio, mais que do próprio, fazendo da amargura que semeiam nas existências vizinhas um prado viçoso para a sua luxúria perversa. Graças a Deus!

A guerra, a fome, a miséria... o fascínio da esquálida condição de submissos dum penar sem fim, sem trégua, sem redenção. Graças a Deus!

As dores nem menores, nem maiores, as dores que conduzem o condenado ao cadafalso, na promessa duma libertação pungente no máximo tormento: o martírio. Porque todo o condenado é um mártir; porque todo o condenado é um santo. Graças a Deus!

O deleite da dor, que devassa e viola todos os recantos secretos duma alma fugidia, mas exposta; todas o são. A lascívia da tortura, no romantismo perverso daqueles que se engodam de si, por uma causa demente e beata duma libido criminosa, na exposição vulnerável. Graças a Deus!

Por amor... com muito amor...


✠


De Adélia Prado, “Bendito”

"Louvado sejas Deus meu Senhor,

porque o meu coração está cortado à lâmina,

mas sorrio no espelho ao que,

à revelia de tudo, se promete.

Porque sou desgraçado

como um homem tangido para a forca,

mas me lembro de uma noite na roça,

o luar nos legumes e um grilo,

minha sombra na parede.

Louvado sejas, porque eu quero pecar

contra o afinal sítio aprazível dos mortos,

violar as tumbas com o arranhão das unhas,

mas vejo Tua cabeça pendida

e escuto o galo cantar

três vezes em meu socorro.

Louvado sejas porque a vida é horrível,

porque mais é o tempo que eu passo recolhendo despojos,

– velho ao fim da guerra como uma cabra –

mas limpo os olhos e o muco do meu nariz,

por um canteiro de grama.

Louvados sejas porque eu quero morrer,

mas tenho medo e insisto em esperar o prometido.

Uma vez, quando eu era menino, abri a porta de noite,

a horta estava branca de luar

e acreditei sem nenhum sofrimento.

Louvado sejas!"


Notas: A foto retirei do blog do Diogo Didier "Ser Feliz É Ser Livre" e o poema do blog "Ser e Conhecer"