Há um momento em que se tem de dizer: BASTA!
Eu nasci em Moçambique sob os auspícios da Bandeira Portuguesa e assumo a minha nacionalidade portuguesa, com muito orgulho dos feitos históricos e civilizacionais com que este povo simples, mas ladino, favoreceu e favorece a Humanidade.
Eu sou português! Vivi durante os mais recentes 40 anos da minha vida em Portugal; o tempo suficiente para ver como um povo oprimido soube sair em liberdade duma sociedade quase rural transformando-a numa de modelo urbano tranquila e cordial, sem cair na vulgaridade do crime e da baixaria de costumes propiciados por uma má formação de carácter social e moral.
Ontem à tarde eu e o Sérgio, falávamos com um vizinho do prédio (homem duns 40/50 anos) e com o seu filho (moço duns vinte e tal anos) sobre computadores e as dificuldades de acesso rápido à internet, quando o homem se saiu com um infeliz “O teu computador deve ter é memória de português!” Eu olhei para ele e mostrei-lhe o meu sorriso amarelo. O indivíduo não entendeu e continuou a sua verborreia xenófoba, para grande constrangimento do filho, até que o Sérgio lhe lembrou: “Ele é português...” O cara nem tinha sacado pela minha pronuncia que eu era português?! Mas afinal é vizinho e sabendo bem da história da minha presença no condomínio... ou será que a memória brasileira dele não é assim tão aquela coisa?
Embaraçados ele e o filho retiraram-se e a conversa ficou por ali.
Ao voltar para casa mergulhei nos blogs amigos, esquecendo o episódio, mas nos comentários a uma publicação de um deles lá fui encontrar uma listagem de epítetos xenófobos com que os brasileiros mimoseiam os que não lhe são iguais: “Português burro, turco pão duro, negro ladrão, amarelo porco.” A avaliar pelo rol os brasileiros acham-se o supra-sumo das virtudes.
Já tive de pedir a brasileiros, meus correspondentes na internet, que tenham a delicadeza de retirar o meu nome da lista de envios quando for para enviar anedotas de mau-gosto sobre portugueses, as quais nenhuma corresponde à verdade e quando analisadas se percebe que são adulteradas no seu relato para visar propositadamente o eterno bode expiatório: o português.
Vejo-me confrontado diariamente com referências depreciativas e injuriosas aos portugueses, tanto nos falares das gentes na rua, como na internet e mesmo nos órgãos informativos. Além do modo paternalista com que todos entendem que me devem advertir, como se eu fosse um mentecapto infantilóide incapaz de me governar. Tem até gente que fala para mim pausadamente e vincando acentuadamente as sílabas como se eu não falasse e entendesse português.
A ignorância magoa, a ignorância ofende.
Foto: Bandeira de Portugal no Castelo de Guimarães. Clicar na foto para ampliar.