
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
ULTRA-DIMENSÃO

quinta-feira, 19 de maio de 2011
FAZENDO BONITO
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
O BÉ
Stillness
Poderia começar este texto de tantas maneiras... Poderia ter-lhe dado tantos títulos...
Venho falar do passado. São 4.30h da madrugada e acordei dum sonho em que estava no parque do Barreiro (cidade onde vivi a maior parte da minha vida) com amigos, uns que me acompanham ainda deste lado da vida e outros que já partiram para a outra margem. Venho falar de saudade... Da saudade do tempo em que fotografava e organizava exposições como o resultado do meu trabalho artístico. Trabalho a que devotava todo a minha criatividade, assim como todo o meu dinheiro, que deveria guardar para comer e vestir... mas eu insistia em dizer que queria viver para a Arte e da Arte. Vivi para a Arte, mas ela nunca me retribuiu com o sustento material. Esse sempre ficou ao encargo dos meus amigos e familiares. Sucesso?! Sim, tinha-o! Sucesso e reconhecimento, tanto público como artístico. Os convites para novas exposições repetiam-se sempre.
Um dia deixei de fotografar. Perguntaram-me porquê. Respondi que já havia feito aquilo que me tinha proposto fazer. Já havia mostrado aquilo que me tinha proposto mostrar. A partir daí seria repetir-me. Mas deixara sementes... Algumas floresceram no trabalho do meu primo Ramarago, que preferiu trocar a sua juventude por infindáveis tardes dactilografando (na época ainda não haviam computadores pessoais) os meus poemas e outros escritos também meus, assim como observando à minúcia os meus trabalhos plásticos.
Sempre quis fotografar a luz; e era a isso que me dedicava, mesmo quando passei a fotografar modelos humanos. Muito do meu trabalho fotográfico era abstracto, para que os olhos não se prendessem no imediato da forma reconhecida, levando a que a mente de quem olhava divagasse por ideias e emoções em busca dum sentido para aquilo que se apresentava perante si. Os títulos eram sempre sugestivos para mais caminhos de fuga e contemplação, que sugeriam ainda mais leituras e quase sempre debates com aqueles que me procuravam para, através dessas conversas, fazerem algo que muitos deles nunca lhes teria passado pela cabeça: discutir Arte. Pois muito do meu público era gente comum que “nada entendia de Arte”, como eles próprios diziam. Mas a Arte é para todos e não para os entendidos. A arte que é feita para os entendidos não é Arte: é snobismo!
Esta foto que hoje apresento e me sugeriu este texto/confissão é a expressão suprema do que quis fazer com a fotografia. Costumo referir-me a ela como a “minha Gioconda”. Chamei-lhe “Stillness” (uma palavra inglesa) por não ter encontrado no riquíssimo vocabulário português uma palavra que melhor exprimisse aquilo que a foto transmite. Também lhe poderia chamar de “Drág” em Djeyvox (minhas amigas Mari e Hürrem, o que vedes na expressão do menino/modelo é aquilo que outro dia eu vos tentava explicar), mas tal seria para vós o mesmo que chamar “sem título”. E porque esta foto é tão importante assim, para que eu veja nela a síntese de todo o meu trabalho em fotografia?
A luz. A luz suave, embora passando por vários cambiantes de intensidade, é o que liga todos os elementos plásticos e emocionais da foto. Ela é mais intensa no alto e sombria na base, sendo macia no rosto do modelo. A expressão tranquila do menino, que parece adormecer encostando a cabeça ao muro, mas com um leve sorriso que oscila entre uma branda felicidade meditativa e a malandrice duma criança que se prepara para fazer uma traquinice; essa expressão contrasta com o esforço das mãos que se fecham em punho contra o muro. Mas tudo isso flui com uma tranquilidade angelical.
Convido-vos a que continuem apreciando e analisando a foto a vosso bel-prazer, tirando as ilações que mais vos aprouver. Se o fizerdes será o melhor elogio que me podereis prestar.
O menino/modelo é o Bé. Tinha então uns 10 anos (foi à uns 20 ou 25 anos). Adorava ir para minha casa nas férias da escola, e passava tardes falando comigo e deixando-se fotografar, com uma paciência infinita e uma plasticidade expressiva dum modelo profissional. A essa plasticidade se deve o sucesso desta foto, pois não pensem que foi um instantâneo de sorte, em que casualmente apanhei um momento feliz e o prendi para a eternidade. Nada disso! Tudo que vêm na foto foi meticulosamente trabalhado e montado; com muito de “faz assim...”, “não tanto!”, “mais!”, “menos!”, “força!”, “suavidade!”, “sorri!”, “só sorriso, não é riso!”, estás muito tenso!”, “inclina mais um pouco...”, “não tanto!” e por fim o “está bom!” era dado pelo clique do obturador.
Um instante feito de muitos minutos de trabalho paciente e dedicado.





