





Eu amo a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Foi nela que eu pisei pela primeira vez solo brasileiro. Foi nela que o Brasil me acolheu nos seus braços.
A sua geologia é fascinante. Adoro passear-me nas ruas e avenidas do Castelo (o Centro) entre a Praça XV e a Avenida Rio Branco (o contraste dos edifícios clássicos com os modernos faz-me sentir como se estivesse na saudosa Europa). Subir ao Pão de Açúcar e desfrutar da maravilhosa vista tanto para o lado do oceano como para a Baía de Guanabara, é uma experiência que não se esquece jamais.
Mas o Rio de Janeiro não é uma cidade bonita e muito longe de ser maravilhosa. O Rio é muito mais que Copacabana, Ipanema, o Pão de Açúcar e o Redentor. É uma cidade imensa que se estende por infindáveis bairros feios e paupérrimos, de barracos sem reboco amontoados como vespeiros. Basta olhar para qualquer favela ou bairro de periferia para entender que, à semelhança do resto do pais, esta é uma cidade de profundas desigualdades e injustiça social.
Procurei aleatoriamente na net algumas imagens de bairros da desfavorecida Zona Norte do Rio. Aquela para a qual (segundo os seus moradores) até o Cristo do Corcovado volta as costas (a estátua está voltada de braços abertos para a Zona Sul, rica por excelência). São as imagens que nenhum operador turístico ou promotor oficial mostra. Como já uma brasileira me disse: são as imagens do Rio que ninguém mostra ao resto do país.









Acção dos traficantes tentando retardar a intervenção policial
Quando as autoridades oficiais afirmam que estão retomando território aos traficantes isso revela incúria. O desleixo com que o regime trata as questões sociais.
Não se acredite que com o sucesso de algumas operações policiais de repressão o problema do tráfico fica resolvido, pois não fica de modo nenhum. O poder que o tráfico atingiu no Rio de Janeiro e um pouco por todo o Brasil, é a consequência do infame desleixo com que a classe política sempre abordou as questões de justiça social.
Justiça Social, Educação e Cidadania. Três questões fundamentais que a sociedade brasileira ainda não aprendeu, nem entendeu a verdadeira necessidade delas para construir uma nação saudável e socialmente pacífica.
Blindados da Marinha chegando em auxílio das forças policiais
Tomando posições
Traficantes foragidos chegando ao Complexo do Alemão em busca de refúgio
É isto uma cidade entregue ao desleixo, preparando-se para receber grandes eventos desportivos mundiais.
Será que se não fosse a proximidade do Mundial de Futebol de 2014 e as Olimpíadas de 2016 teria havido uma intervenção tão enérgica das autoridades? Eu quero acreditar, com toda a minha ingenuidade, que sim.
Mas... Acções destas não eliminam o problema! Apenas desmantelam alguma organização e disseminam o mal para outras regiões.

O texto: foi escrito no Rio de Janeiro aquando da minha estadia em terras cariocas em 2008 e havia sido publicado anteriormente aqui.
A foto: como diria a amiga Clarice, a foto veio daqui. É um postal ilustrado feito a partir duma imagem antiga onde se pode perceber um pouco do que eu já havia falado anteriormente; idealizar como teria sido a paisagem antes da edificação das nossas cidades actuais.
A dedicatória: à Mari e a todos os meus amigos cariocas, de quem tenho muitas saudades.
Sexta-feira, 14 de março de 2008
Há sempre dois lados; duas faces; dois mundos.
Ontem andei passeando-me por Ipanema e Copacabana. O outro mundo do Rio de Janeiro; o Rio de Janeiro com que todos sonhamos. Um mundo muito distante do Rio de Janeiro dos bairros da periferia e das favelas. Um mundo idílico de bem viver e desfrutar dos prazeres da cidadania, numa urbe moderna e que reluz como jóia entre as mais favorecidas do planeta.
Ipanema; um bairro onde harmoniosamente ladeiam o comércio, os serviços e os condomínios de habitação. Por aqui e por ali um hotel, que em nada se destaca dos condomínios de classe alta que o ladeiam. Ao fim da tarde uma tranquila agitação daqueles que regressam ao conforto dos seus lares, cruzando-se com o sexagenário que sai de bermudas, para passear o seu poodle, aproveitando a leve brisa marítima que chega da marginal ali ao lado. Na esplanada do boteque “A Espelunca”, agrupam-se amigos, ainda de camisa e gravata, num convívio coroado pelos copos de cerveja gelada. Embora com o nome sui generis, que achei divertidíssimo, de espelunca é que o bar não tem nada; pelo contrário o bom gosto da decoração exótica e bem tropical, testemunhava o requinte de quem quer servir para agradar. As ruas arborizadas e de passeios largos, profusamente ajardinados, são um convite a um passeio tranquilo e reparador, ao fim dum dia de trabalho. Um bairro saído da lâmpada de Aladino.
É este Brasil que eu quero. É este Brasil que os brasileiros merecem. É este Brasil que todos os brasileiros deveriam construir.
Mas enquanto deambulava pela lânguida Ipanema apenas uma palavra me vinha à mente: Educação.

