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terça-feira, 30 de julho de 2013

IGUANA



Era noite. Eu apressava o passo. Tinha um compromisso agendado e estava quase na hora. Não gosto de me atrasar. Mas dependendo de terceiros, transportes públicos e outros imprevistos...

Não, não me perguntem qual o compromisso. Já não recordo ao certo. Vaga ideia de ser um encontro com alguém para tratar da possibilidade duma exposição de trabalhos meus. Mas vago, tudo muito vago, que acabou por nem dar em nada.

Cheguei. Na hora! Entrei no shopping e dirigi-me à loja de animais, onde havíamos marcado o encontro. Lembro agora que era com a proprietária. Ela não estava: “Ainda não chegou!” disseram-me “Espere um pouco.”

Para passar o tempo pus-me a olhar os aquários, gaiolas e demais mostradores dos animais para venda. Numa gaiola de vidro um grupo de pequenas iguanas verdes esperava o seu destino. Detive-me. Adoro apreciar estas atraentes criaturas. Cativa-me a sua semelhança a dragões.

Pequenos dragões sem asas.

O grupo apresentava-se indiferente, como é hábito. Apenas um indivíduo olhava-me fixamente. Era lindo! Dum verde intenso e luminoso. Mas eu não ia ficar ali especado, pelo que avancei em direcção a outra gaiola.

O olhar do pequeno réptil seguiu-me atentamente. Surpreso com o facto, eu voltei e comecei a deslocar-me, ora para um lado ora para outro. O olhar da pequena iguana seguia-me. Afastei-me para fora do seu raio de visão e ela (ou ele) moveu-se, para continuar a observar-me. Sorri apaixonado! Mas não podia levar a criaturinha comigo; o meu estilo de vida não me permitiria dedicar-lhe a atenção e cuidados necessários.



quarta-feira, 19 de junho de 2013

LD



“L. D.” é de Lawrence Durrel. Não tem mistério nenhum.

Bons os tempos em que eu espatifava o meu salário todo em leituras e músicas. Enchia as prateleiras de casa com livros e LPs, que depois passaram a ser CDs.

Leitor lento que sou, não conseguia devorar tudo que comprava numa vertigem acumuladora. “É para ler quando me aposentar” respondia quando me interrogavam se lia tudo aquilo.

Na verdade era uma acumulo disparatado. Sempre tive um impulso doentio para guardar papeis. Sem mais espaço nos móveis, por fim empilhava os livros no chão mesmo, subindo pelos cantos.

Cheguei a separar o acumulado por temas e estilos, distribuindo depois por amigos e familiares que sabia apreciarem este ou aquele género. Só assim conseguiria espaço para continuar a estouvada aquisição bibliotecária.

E de que serviu tal febre? De nada! Absolutamente nada! A não ser para me esvair a carteira e viver continuamente sem chavo. Nunca consegui fazer economias por causa desse vício estúpido.

“Salve-se Quem Puder” veio num grupo eclético, como muitos outros títulos. Eram contos - meu modelo favorito, pois esses eu tinha mais garantias de conseguir chegar ao fim. Em geral eu abandono a leitura a meio da obra, sem me preocupar muito com o desenlace da mesma. O que me fascina é a palavra e o uso que o escritor faz dela. As histórias eu mesmo as posso inventar a meu jeito e bel prazer.

Tenho uma memória mais emocional que factual. Lembro com facilidade as emoções relacionadas com os eventos. Já o mesmo não posso dizer dos pormenores dos factos. Assim não me lembro bem dos conteúdos e tema dos contos desse volume. Tão pouco lembro se li todos. Apenas recordo que aquilo que li se desenrolava algures no norte de África. Mas não esqueço as gargalhadas, as deliciosas gargalhadas. Ah, como eu ri com puro gosto! A hilaridade era de tal ordem que eu tinha de parar a leitura para me recompor do riso e aprimorar os olhos (limpando-os das lágrimas), de modo a retornar ao mergulho nas letras e na narrativa.

quarta-feira, 21 de março de 2012

ANJOS DE TERNURA

Eu tive a benção, mais que felicidade, de conhecer a Olguinha.
Tivemos um convívio mais próximo quando ela era ainda criança e eu um jovem receoso de não saber lidar convenientemente com a sua diferença e de algum modo poder melindrá-la. Mas o seu sorriso era sempre reconfortante.

Muitos anos depois (uns vinte anos depois) eu seguia pelo Rossio (enorme praça no Centro de Lisboa) eu ouvi um grito: Mãe, olha o Manuel!!!" Eu estaquei, pois aquela voz sobressaltou toda a minha memória. Olhei em volta e lá estava aquele sorriso aberto e maravilhoso. Uma jovem puxava pela mão da sua mãe, que hesitava confusa, acabando por se render a um espanto quando me aproximei: "Olha, és mesmo tu Manuel! Como ela te reconheceu logo ao fim de tantos anos de ausência!" A Olguinha era um sorriso imenso que se expandia para além da praça... da própria cidade!
As pessoas com Síndrome de Dawn foram os humanos mais ternos e carinhosos que já conheci. Autênticos anjos que iluminam o nosso mundo e as nossas vidas (as vidas daqueles que têm a felicidade de poder conviver com eles quotidianamente).

Dedicatória: Para a Olguinha e todos os outros anjos como ela, dedico este meu testemunho de amor e amizade.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

NOSTALGIA (DOM FERNANDO II E GLÓRIA)

Quando cheguei a Portugal, pelos idos de 1968, havia uma carcaça arruinada encalhada em frente das instalações militares da Base Naval do Alfeite. Sempre que atravessava o rio, para ir ou voltar de Lisboa, eu me posicionava no barco de modo a poder olhar os restos daquela ruína histórica.

A nau Dom Fernando II e Glória foi o último navio de guerra totalmente à vela da Marinha Portuguesa. Uma fragata construída nos estaleiros navais de Damão (Índia Portuguesa) com madeira de teca e lançada ao mar em Outubro de 1843.

O seu nome é uma homenagem ao Casal Real Dom Fernando II (Rei-Consorte) e Dona Maria da Glória (Rainha Dª Maria II).

Depois de quase cem anos ao serviço da marinha, a D. Fernando e Glória foi desmobilizada e convertida em casa de recolhimento da Obra Social da Fragata D. Fernando, uma instituição social vocacionada a albergar e dar instrução e treino de marinharia a rapazes oriundos de famílias pobres.

Em 1963 um grande incêndio destruiu grande parte do navio, que arruinado foi arrastado ao seu sepulcro, onde o fui encontrar.



Em 1992 iniciou-se a reconstrução da D. Fernando e Glória, que duraria até 1997. Foram utilizadas 1200 toneladas de madeiras nobres de carvalho, azinho e cambala africana, dada a grande dificuldade de arranjar tão grande quantidade de madeira de teca. Depois do devastador incêndio e de 30 anos apodrecendo nos lodos do estuário do Tejo, 20% do travejamento que suporta a D. Fernando e Glória reconstruída ainda são as originais de teca de Nagar-Aveli, do século XIX.

Em 1998 visitei a ressuscitada Dom Fernando II e Glória na Expo98 de Lisboa. Foi como viver um sonho, o estar dentro dum navio que tanto me fez sonhar em criança, quando não passava duma carcaça apodrecida nas lamas e marés do estuário.

Nota: fotos recolhidas na internet.