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quinta-feira, 1 de março de 2012

O SONHO

Estantes até ao tecto repletas de livros. Um assento confortável, com boa luz. Silêncio e tranquilidade, a privacidade tão desejada. Acesso directo a um jardim bem arranjado e isolado. Que mais se pode desejar para ler e trabalhar? Talvez apenas um bom fundo musical, escolhido a gosto, quando tal for necessário para ajudar a criar ambiente, ou auxiliar na reflexão.

terça-feira, 26 de abril de 2011

NÓS, EM DEPRESSÃO

A depressão é uma doença! Não é um estado frívolo de afectação de humor.

O amigo que não me responde, como se não me reconhecesse, como se não me visse, como se eu não existisse. O quarto que se fecha hermético em muros inquebráveis, aprisionando-me a mim e aos medos e incompreensões que habitam em mim e comigo convivem.

A tentativa desesperada de deixar um rasto, uma prova, da intolerância e incompreensão dos outros, que riem e ignoram ostensivamente o drama de quem não consegue a voz de se fazer ouvir; porque da fala nada sai e aos ouvidos nada chega. A prova de que existo, a prova de que luto, a prova de que estou aqui, com vontade de viver, com vontade de ganhar o espaço e o tempo que me são devidos. A prova de que não desisto da vida, embora seja o ímpeto mais fiel e presente e premente no meu íntimo, o de que ela cesse logo e com o seu fim todo o tormento que é cada ínfimo momento duma existência de horrores internos.

A luta desesperada que é manter viva a prova do atentado que a coarctação do meu direito à cura é. Eu quero me tratar! Eu quero me curar! Eu quero libertar-me das grilhetas infames que me privam do mais básico e divino direito de me viver a mim e à minha vida em pleno! Eu quero ser eu! Quero o pleno usufruto da minha vida e da minha pessoa, sem limites, sem fobias, sem fúrias!

É o caso da frieza e frivolidade de alguns “médicos” que me acusam de ser um dependente de fármacos e querer levar a vida me iludindo com medicamentos quando, na sua criminosa ignorância, bastaria eu sair de casa e dar uns passeiozinhos para ficar curado.

Estou cansado!

Não é uma questão de tomar um medicamento ou não. É toda uma vida perdida! Uma vida perdida para a falta de ânimo, para a completa ausência de motivação e mobilização, mesmo para encetar e concluir as mais insignificantes tarefas do quotidiano.

Mesmo coisas tão simples se tornam, ridiculamente, imensos desafios de vida, como, por exemplo, o simples facto de sair do quarto e atravessar a casa para ir lavar o rosto pela manhã, tendo de enfrentar os restantes membros da família, é uma prova de vida e coragem. Sim, enfrentar, pois o simples facto de me apresentar perante alguém é um acto de desafio a todas as fobias que roem o ânimo, a alma, continuada e implacavelmente, sem tréguas. O banal acto de atender um telefonema é uma épica luta travada entre esconjuros e imprecações, resistindo a ganas colossais de reduzir o pequeno aparelho a cacos e pó.

Acham que isto é viver? E depois ainda me vêm dizer: sai de casa e vai dar uma volta. Como se a intenção de enfrentar a rua (E TODO O MUNDO LÁ FORA) não fosse o maior dos tormentos!!! Se até para sair do quarto eu tenho de me pontapear e atirar porta fora... como se faz a uma nojeira abjecta!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

LES DANSEUSES BLEUES

Azul... o sonho, a pausa, a dança, a vida. O devaneio de querer ir além, alcançar as espirais superiores do ser.

Juventude... o anseio duma perfeição nunca alcançada. A intangibilidade duma felicidade que corre despercebida; tão intensa quanto fugaz. A busca dum delírio; mais quimera que paraíso. A beleza que se escapa nas pregas e meandros dum percurso sempre cego, feito duma cadeia de ininterruptos presentes; descontínuos na sua continuidade incompreendida. A vaidade duma película que Cronos reclamará em rugas e chagas dum percurso sofrido.

As ninfas... (e os faunos?). A pureza falsa, disfarçando a corruptibilidade duma glória encenada. O palco lustroso esquecendo as misérias da existência. A esperança dum idílio que nunca chega a maturidade; sempre meio-caminho de coisa nenhuma. A falsa promessa.

A glória do quase.



Nota: Este texto é a minha participação para o desafio de blogagem colectiva “Minha Ideia é meu Pincel” lançado pela amiga Glorinha L de Lion do Café com Bolo, inspirado no quadro “Les Danseuses Bleues” de Edgar Degas