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terça-feira, 3 de julho de 2012

OS ANJINHOS



Educar não é oprimir nem reprimir, mas sim ensinar limites. Despertar a consciência de si entre os outros.

Viver sem limites é criar o caos. E quem vive sem limites acaba isolado e só.

Aconteceu na minha presença: A criança largada no Museu de Energia Nuclear, sob o olhar irresponsável dos pais, arranca o expositor da parede e escaqueira tudo no chão. Vergonha! O espanto e indignação geral de todo o grupo de visitantes. Os pais... nem uma palavra de admoestação. A criança... continuou sorrindo e brincando. No chão ficaram cacos de vidros e de cristais de quartzo, que tinham sido tratados com radioactividade para tonalização.

Todos parecem querer delegar na escola aquilo que não fazem em casa: educar. A escola não educa a personalidade de crianças. Não é essa a sua função. A escola ensina. A educação duma criança começa e faz-se em casa, com a família.

Criança não conhece limites. Cabe aos pais a função de dar à criança o entendimento da importância do respeito pelo seu espaço e o espaço dos outros. É no lar que a criança procura modelos. Junto daqueles que ele primeiro ama e em quem se inspira. Se só lhe mostram e dão bagunça no lar, é isso que ele levará como modelo para o resto da vida.

E os outros que se lixem!



Nota: Quanto ao incidente no Museu, podem ficar tranquilos que não houve riscos de contaminação radioactiva. Embora tivessem sido tratados com radioactividade os objectos não eram radioactivos. Tal como ninguém fica radioactivo depois duma radiografia. 

domingo, 29 de abril de 2012

O ESTUPRO, O ESTUPRADOR E A VÍTIMA

Silvino Baptista Preto


Eu não tenho que pedir desculpa por estar vivo!


Eu, em criança, fui estuprado. Mesmo com consentimento, eu fui estuprado.
Fui seduzido, Fui provocado. Fui assediado. Fui forçado; mesmo que gentilmente, mas fui forçado. E fui admoestado a manter segredo por uma prática que eu sabia bem ser socialmente condenada e cujo conhecimento geral traria muito constrangimento para ambos. Em criança eu tive que conviver com um segredo atroz, que me atormentava, mas que a ninguém podia revelar em busca de amparo e apoio.


Aos 10 anos de idade, meus pais deixaram-me noutro continente, longe deles e das minhas irmãs, longe da nossa casa, do nosso lar. Deixaram-me ao encargo desse homem (na foto), que eles elegeram como meu tutor. Ele seria o meu guardião, o meu mentor, o meu protector... enfim seria o meu pai, desde então. Seria a pessoa em que eu deveria confiar e respeitar.


Mas ao invés disso ele se aproveitou da minha vulnerabilidade e isolamento, para me violentar; mesmo que gentilmente, através da sedução e persuasão, ele me violentava, cada vez que me estuprava. E isso durou anos. Toda a minha adolescência!
Para que tal perdurasse ele me impunha um regime de secretismo, que me levou - devido à minha tenra idade e à falta de apoio, por ter sido deixado desamparado pelos meus pais -  à associação traumática e cruel de sexo com dor, vergonha e culpa.
Assim ele castrou o meu prazer, a minha felicidade e a minha paz interior. Ele castrou-me forçando-me ao constrangimento, à dor física - e moral - e ao silêncio.


Ele me encarcerou, até hoje, numa masmorra de expiação duma culpa que não é minha, dum crime que ele cometeu sobre a minha pessoa, a minha dignidade e a minha integridade. Uma culpa que é e sempre foi, apenas dele. Um crime da qual eu fui vítima e não cúmplice!


Eu fui a vítima e não ele! Eu sou quem merece remissão e não ele! Eu que quase perdi a minha vida para a dor e o sofrimento permanentes e não ele.
Eu é que mereço perdão! 
Eu mereço viver livre e feliz! Eu mereço viver com honra , dignidade e orgulho!
Eu mereço ser Eu!
Eu mereço ser completo e viver completo! Eu mereço ser amado e dar amor! Eu mereço ser um homem completo!


Eu não tenho que pedir desculpa por viver! Eu tenho que me orgulhar de ter sobrevivido e lutado por mim, pela minha integridade, pela minha felicidade! Eu me orgulho de ter sabido viver com honra!


Eu orgulho-me de ser Eu!


Eu sou um homem completo!


Nota: Para esclarecer alguns comentadores e quem possa ficar na dúvida, este relato é verdadeiro e foi a minha vida.



domingo, 8 de maio de 2011

EU, O ANJINHO

Eu tinha 11 anos e mantinha assíduas relações sexuais, de coito completo, com o meu tutor. E querem saber mais?! Fui eu quem sempre o seduziu! Depois da insistência no assédio e de todos os tipos de estratagemas e chantagens ele acabou por ceder e permitir que satisfizéssemos as nossas mais básicas e naturais necessidades de prazer e proximidade afectiva.

Sim, eu era bem jovem, mas perfeitamente ciente do que estava fazendo. Nem ele precisaria de me aconselhar o mais absoluto segredo, pois a minha maior preocupação era se ele manteria o mesmo segredo. O facto da tenra idade era irrelevante para a consciência sexual que eu teria, pois já muito antes (bem mais novo ainda) eu vinha mantendo jogos eróticos com todo o tipo de parceiro que se dispusesse a aventurar-se por campos que a paternalista e machista sociedade vigente e soberana, condenava ferozmente.

Não promovo, não apoio, não fomento a pedofilia. Mas nunca condenarei o meu tutor (nem a sua memória), nem outros que me tenham reconhecido como um ser humano inteligente com desejos e paixões.

Nota dedicatória: ao meu amigo Jr, em solidariedade.

Aviso: reservo-me o direito de não publicar os comentários que eu entender serem moralistas ou ofensivos ao meu modo de pensar e entender o mundo e a vida.


sábado, 11 de dezembro de 2010

PAI E FILHA


M - Têm-me dito que o povo brasileiro é amoroso, criativo e diversificado. Eu acredito piamente! E a cada instante deparo-me com provas disso.

S – Sim. E daí? Que foi agora?

M – Eu estava ali olhando pela janela e passou um homem com uma menina duns 5 ou 6 anos pela mão.

S – E então? Que tem isso de mais?

M – Nada demais... só que a criança ia andando enquanto o homem ia pedalando montado na bicicleta.


Nota: Embora semelhante ao teu estilo de post-diálogo, juro que não te roubei a ideia Lobo (um beijo para ti, amigo). Dedico-te assim este post.

Nota 2: Foi mesmo verdade e o M sou mesmo eu. Obviamente que o S é o Serginho.


Queen - Bicycle Race

sexta-feira, 30 de julho de 2010

DIAGNÓSTICO

Caminhava pela sombra, junto às paredes. Esperava aos cantos, ou por trás dos outros, onde fosse mais difícil de me acharem, afastado dos grupos e alunos mais irrequietos e barulhentos. Evitava as brincadeiras mais rudes e tinha um medo quase irracional das bolas com que os outros se deliciavam em efusivos jogos.

Na escola era elogiado pelo bom comportamento, embora os professores lamentassem a falta de participação, pois tentava sempre ficar escondido atrás dos outros alunos, de modo a evitar ser chamado ao quadro, para resolver algum problema, ou responder a alguma pergunta sobre a matéria dada, que de resto sabia sempre a resposta.

Em casa ficava no quarto, sozinho, deliciado na leitura dum livro, de preferência com temática científica ou histórica e entretido com os muitos carrinhos que tinha ganho como prémios por boas notas escolares, planeando cidades plenas de vida e actividade, onde viveria feliz. Em folhas de papel A4 desenhava botões de teclado e mostradores de ponteiros e colava nas paredes do quarto, encenando os painéis de comando da nave com que sonhava poder partir para outros mundos, onde pudesse encontrar outros que sentissem e agissem do mesmo modo.

Adorava ir à praia. O contacto com a água viva e plena de força, que tanto acariciava como enrolava e arrastava na rebentação das ondas e a imensa superfície do mar se espalhando infinito pelo horizonte, eram portas para o sonho e a fuga, sempre anunciando outros mundos, outras realidades.

Diziam que era muito sossegado e muito bem comportado. Talvez um pouco sossegado demais. Achavam que era um menino encantador, exemplo de boa educação e nunca dando ralações nem trabalhos a ninguém.

Na verdade era o início duma profunda depressão que por ignorância nunca foi percebida e acabou por evoluir numa distimia crónica, muito tardiamente diagnosticada.

Quando uma criança é demasiado sossegada ou demasiado irrequieta algo não está muito bem, pelo que é necessário procurar opinião e auxílio de quem seja especializado. Somos seres essencialmente mentais e emocionais, pelo que é fundamental uma observação atenta a nível psicológico. É necessário derrotar definitivamente o preconceito de que quem vai ao psiquiatra e ao psicólogo são os doidos.

sábado, 5 de setembro de 2009

BEIJANDO

Esta semana, no Brasil, foi detido um turista italiano por ter beijado, nos lábios, a filha de oito anos na piscina pública duma instalação hoteleira. A presença da polícia e a instauração do processo judicial foram pedidos por turistas brasileiros que se encontravam no local e se sentiram vexados pela conduta do indiciado. 

Num país onde tão pouco se tem respeitado a criança (lembremos o massacre dos meninos de rua na Candelária) e onde se induzem as crianças ao consumo e tráfico de drogas, onde se instigam os menores a toda a prática de crimes e se os educa através duma programação televisiva de gosto duvidoso, tal medida é mesquinha, revelando um absurdo excesso de zelo, carregado duma imensa xenofobia.

Se o Brasil quer crescer como país com pretensões a ocupar no mundo um lugar de liderança, então o seu povo tem de se reeducar do seu chauvinismo marialva e do machismo obsoleto e tacanho com que pauta o seu quotidiano.

Não é através de telenovela que se educa um povo!