terça-feira, 3 de julho de 2012
OS ANJINHOS
domingo, 29 de abril de 2012
O ESTUPRO, O ESTUPRADOR E A VÍTIMA
Eu não tenho que pedir desculpa por estar vivo!
Eu, em criança, fui estuprado. Mesmo com consentimento, eu fui estuprado.
Fui seduzido, Fui provocado. Fui assediado. Fui forçado; mesmo que gentilmente, mas fui forçado. E fui admoestado a manter segredo por uma prática que eu sabia bem ser socialmente condenada e cujo conhecimento geral traria muito constrangimento para ambos. Em criança eu tive que conviver com um segredo atroz, que me atormentava, mas que a ninguém podia revelar em busca de amparo e apoio.
Aos 10 anos de idade, meus pais deixaram-me noutro continente, longe deles e das minhas irmãs, longe da nossa casa, do nosso lar. Deixaram-me ao encargo desse homem (na foto), que eles elegeram como meu tutor. Ele seria o meu guardião, o meu mentor, o meu protector... enfim seria o meu pai, desde então. Seria a pessoa em que eu deveria confiar e respeitar.
Mas ao invés disso ele se aproveitou da minha vulnerabilidade e isolamento, para me violentar; mesmo que gentilmente, através da sedução e persuasão, ele me violentava, cada vez que me estuprava. E isso durou anos. Toda a minha adolescência!
Para que tal perdurasse ele me impunha um regime de secretismo, que me levou - devido à minha tenra idade e à falta de apoio, por ter sido deixado desamparado pelos meus pais - à associação traumática e cruel de sexo com dor, vergonha e culpa.
Assim ele castrou o meu prazer, a minha felicidade e a minha paz interior. Ele castrou-me forçando-me ao constrangimento, à dor física - e moral - e ao silêncio.
Ele me encarcerou, até hoje, numa masmorra de expiação duma culpa que não é minha, dum crime que ele cometeu sobre a minha pessoa, a minha dignidade e a minha integridade. Uma culpa que é e sempre foi, apenas dele. Um crime da qual eu fui vítima e não cúmplice!
Eu fui a vítima e não ele! Eu sou quem merece remissão e não ele! Eu que quase perdi a minha vida para a dor e o sofrimento permanentes e não ele.
Eu é que mereço perdão!
Eu mereço viver livre e feliz! Eu mereço viver com honra , dignidade e orgulho!
Eu mereço ser Eu!
Eu mereço ser completo e viver completo! Eu mereço ser amado e dar amor! Eu mereço ser um homem completo!
Eu não tenho que pedir desculpa por viver! Eu tenho que me orgulhar de ter sobrevivido e lutado por mim, pela minha integridade, pela minha felicidade! Eu me orgulho de ter sabido viver com honra!
Eu orgulho-me de ser Eu!
Eu sou um homem completo!
Nota: Para esclarecer alguns comentadores e quem possa ficar na dúvida, este relato é verdadeiro e foi a minha vida.
domingo, 8 de maio de 2011
EU, O ANJINHO
Eu tinha 11 anos e mantinha assíduas relações sexuais, de coito completo, com o meu tutor. E querem saber mais?! Fui eu quem sempre o seduziu! Depois da insistência no assédio e de todos os tipos de estratagemas e chantagens ele acabou por ceder e permitir que satisfizéssemos as nossas mais básicas e naturais necessidades de prazer e proximidade afectiva.
Sim, eu era bem jovem, mas perfeitamente ciente do que estava fazendo. Nem ele precisaria de me aconselhar o mais absoluto segredo, pois a minha maior preocupação era se ele manteria o mesmo segredo. O facto da tenra idade era irrelevante para a consciência sexual que eu teria, pois já muito antes (bem mais novo ainda) eu vinha mantendo jogos eróticos com todo o tipo de parceiro que se dispusesse a aventurar-se por campos que a paternalista e machista sociedade vigente e soberana, condenava ferozmente.
Não promovo, não apoio, não fomento a pedofilia. Mas nunca condenarei o meu tutor (nem a sua memória), nem outros que me tenham reconhecido como um ser humano inteligente com desejos e paixões.
Nota dedicatória: ao meu amigo Jr, em solidariedade.quinta-feira, 31 de março de 2011
sábado, 11 de dezembro de 2010
PAI E FILHA
M - Têm-me dito que o povo brasileiro é amoroso, criativo e diversificado. Eu acredito piamente! E a cada instante deparo-me com provas disso.
S – Sim. E daí? Que foi agora?
M – Eu estava ali olhando pela janela e passou um homem com uma menina duns 5 ou 6 anos pela mão.
S – E então? Que tem isso de mais?
M – Nada demais... só que a criança ia andando enquanto o homem ia pedalando montado na bicicleta.
Nota: Embora semelhante ao teu estilo de post-diálogo, juro que não te roubei a ideia Lobo (um beijo para ti, amigo). Dedico-te assim este post.
Nota 2: Foi mesmo verdade e o M sou mesmo eu. Obviamente que o S é o Serginho.
Queen - Bicycle Race
sexta-feira, 30 de julho de 2010
DIAGNÓSTICO
Caminhava pela sombra, junto às paredes. Esperava aos cantos, ou por trás dos outros, onde fosse mais difícil de me acharem, afastado dos grupos e alunos mais irrequietos e barulhentos. Evitava as brincadeiras mais rudes e tinha um medo quase irracional das bolas com que os outros se deliciavam em efusivos jogos.
Na escola era elogiado pelo bom comportamento, embora os professores lamentassem a falta de participação, pois tentava sempre ficar escondido atrás dos outros alunos, de modo a evitar ser chamado ao quadro, para resolver algum problema, ou responder a alguma pergunta sobre a matéria dada, que de resto sabia sempre a resposta.
Em casa ficava no quarto, sozinho, deliciado na leitura dum livro, de preferência com temática científica ou histórica e entretido com os muitos carrinhos que tinha ganho como prémios por boas notas escolares, planeando cidades plenas de vida e actividade, onde viveria feliz. Em folhas de papel A4 desenhava botões de teclado e mostradores de ponteiros e colava nas paredes do quarto, encenando os painéis de comando da nave com que sonhava poder partir para outros mundos, onde pudesse encontrar outros que sentissem e agissem do mesmo modo.
Adorava ir à praia. O contacto com a água viva e plena de força, que tanto acariciava como enrolava e arrastava na rebentação das ondas e a imensa superfície do mar se espalhando infinito pelo horizonte, eram portas para o sonho e a fuga, sempre anunciando outros mundos, outras realidades.
Diziam que era muito sossegado e muito bem comportado. Talvez um pouco sossegado demais. Achavam que era um menino encantador, exemplo de boa educação e nunca dando ralações nem trabalhos a ninguém.
Na verdade era o início duma profunda depressão que por ignorância nunca foi percebida e acabou por evoluir numa distimia crónica, muito tardiamente diagnosticada.
Quando uma criança é demasiado sossegada ou demasiado irrequieta algo não está muito bem, pelo que é necessário procurar opinião e auxílio de quem seja especializado. Somos seres essencialmente mentais e emocionais, pelo que é fundamental uma observação atenta a nível psicológico. É necessário derrotar definitivamente o preconceito de que quem vai ao psiquiatra e ao psicólogo são os doidos.
sábado, 5 de setembro de 2009
BEIJANDO
Esta semana, no Brasil, foi detido um turista italiano por ter beijado, nos lábios, a filha de oito anos na piscina pública duma instalação hoteleira. A presença da polícia e a instauração do processo judicial foram pedidos por turistas brasileiros que se encontravam no local e se sentiram vexados pela conduta do indiciado.
Num país onde tão pouco se tem respeitado a criança (lembremos o massacre dos meninos de rua na Candelária) e onde se induzem as crianças ao consumo e tráfico de drogas, onde se instigam os menores a toda a prática de crimes e se os educa através duma programação televisiva de gosto duvidoso, tal medida é mesquinha, revelando um absurdo excesso de zelo, carregado duma imensa xenofobia.
Se o Brasil quer crescer como país com pretensões a ocupar no mundo um lugar de liderança, então o seu povo tem de se reeducar do seu chauvinismo marialva e do machismo obsoleto e tacanho com que pauta o seu quotidiano.
Não é através de telenovela que se educa um povo!



