Um em cada três brasileiros responsabiliza as
vítimas pelos estupros que sofreram. “Por não se vestirem decentemente”, “por
serem provocadoras”, “por não se comportarem e darem ao respeito”,...
Sintomático da mentalidade tacanha e machista que imprime a cultura social
brasileira ainda em pleno século XXI. Não vamos escamotear tentando argumentar
que isso é uma opinião de homens, pois a percentagem de mulheres que também
assim pensa é do mesmo modo elevadíssima. É uma questão de educação; aquela que
é transmitida pela família, logo pelas próprias mães também, que foram criadas
numa cultura machista e, não só aceitam, como reverberam na sua descendência
essa tradição perversa e anti-natura. Como país obcecadamente religioso, o povo
não faz muito mais que repetir os padrões e conceitos que a religião sempre
lhes impôs: sujeição da mulher, estigmatização da mulher, demonização da
mulher,...
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segunda-feira, 26 de setembro de 2016
domingo, 29 de abril de 2012
O ESTUPRO, O ESTUPRADOR E A VÍTIMA
Silvino Baptista Preto
Eu não tenho que pedir desculpa por estar vivo!
Eu, em criança, fui estuprado. Mesmo com consentimento, eu fui estuprado.
Fui seduzido, Fui provocado. Fui assediado. Fui forçado; mesmo que gentilmente, mas fui forçado. E fui admoestado a manter segredo por uma prática que eu sabia bem ser socialmente condenada e cujo conhecimento geral traria muito constrangimento para ambos. Em criança eu tive que conviver com um segredo atroz, que me atormentava, mas que a ninguém podia revelar em busca de amparo e apoio.
Aos 10 anos de idade, meus pais deixaram-me noutro continente, longe deles e das minhas irmãs, longe da nossa casa, do nosso lar. Deixaram-me ao encargo desse homem (na foto), que eles elegeram como meu tutor. Ele seria o meu guardião, o meu mentor, o meu protector... enfim seria o meu pai, desde então. Seria a pessoa em que eu deveria confiar e respeitar.
Mas ao invés disso ele se aproveitou da minha vulnerabilidade e isolamento, para me violentar; mesmo que gentilmente, através da sedução e persuasão, ele me violentava, cada vez que me estuprava. E isso durou anos. Toda a minha adolescência!
Para que tal perdurasse ele me impunha um regime de secretismo, que me levou - devido à minha tenra idade e à falta de apoio, por ter sido deixado desamparado pelos meus pais - à associação traumática e cruel de sexo com dor, vergonha e culpa.
Assim ele castrou o meu prazer, a minha felicidade e a minha paz interior. Ele castrou-me forçando-me ao constrangimento, à dor física - e moral - e ao silêncio.
Ele me encarcerou, até hoje, numa masmorra de expiação duma culpa que não é minha, dum crime que ele cometeu sobre a minha pessoa, a minha dignidade e a minha integridade. Uma culpa que é e sempre foi, apenas dele. Um crime da qual eu fui vítima e não cúmplice!
Eu fui a vítima e não ele! Eu sou quem merece remissão e não ele! Eu que quase perdi a minha vida para a dor e o sofrimento permanentes e não ele.
Eu é que mereço perdão!
Eu mereço viver livre e feliz! Eu mereço viver com honra , dignidade e orgulho!
Eu mereço ser Eu!
Eu mereço ser completo e viver completo! Eu mereço ser amado e dar amor! Eu mereço ser um homem completo!
Eu não tenho que pedir desculpa por viver! Eu tenho que me orgulhar de ter sobrevivido e lutado por mim, pela minha integridade, pela minha felicidade! Eu me orgulho de ter sabido viver com honra!
Eu orgulho-me de ser Eu!
Eu sou um homem completo!
Nota: Para esclarecer alguns comentadores e quem possa ficar na dúvida, este relato é verdadeiro e foi a minha vida.
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