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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

UM EM TRÊS


Um em cada três brasileiros responsabiliza as vítimas pelos estupros que sofreram. “Por não se vestirem decentemente”, “por serem provocadoras”, “por não se comportarem e darem ao respeito”,... Sintomático da mentalidade tacanha e machista que imprime a cultura social brasileira ainda em pleno século XXI. Não vamos escamotear tentando argumentar que isso é uma opinião de homens, pois a percentagem de mulheres que também assim pensa é do mesmo modo elevadíssima. É uma questão de educação; aquela que é transmitida pela família, logo pelas próprias mães também, que foram criadas numa cultura machista e, não só aceitam, como reverberam na sua descendência essa tradição perversa e anti-natura. Como país obcecadamente religioso, o povo não faz muito mais que repetir os padrões e conceitos que a religião sempre lhes impôs: sujeição da mulher, estigmatização da mulher, demonização da mulher,...

domingo, 29 de abril de 2012

O ESTUPRO, O ESTUPRADOR E A VÍTIMA

Silvino Baptista Preto


Eu não tenho que pedir desculpa por estar vivo!


Eu, em criança, fui estuprado. Mesmo com consentimento, eu fui estuprado.
Fui seduzido, Fui provocado. Fui assediado. Fui forçado; mesmo que gentilmente, mas fui forçado. E fui admoestado a manter segredo por uma prática que eu sabia bem ser socialmente condenada e cujo conhecimento geral traria muito constrangimento para ambos. Em criança eu tive que conviver com um segredo atroz, que me atormentava, mas que a ninguém podia revelar em busca de amparo e apoio.


Aos 10 anos de idade, meus pais deixaram-me noutro continente, longe deles e das minhas irmãs, longe da nossa casa, do nosso lar. Deixaram-me ao encargo desse homem (na foto), que eles elegeram como meu tutor. Ele seria o meu guardião, o meu mentor, o meu protector... enfim seria o meu pai, desde então. Seria a pessoa em que eu deveria confiar e respeitar.


Mas ao invés disso ele se aproveitou da minha vulnerabilidade e isolamento, para me violentar; mesmo que gentilmente, através da sedução e persuasão, ele me violentava, cada vez que me estuprava. E isso durou anos. Toda a minha adolescência!
Para que tal perdurasse ele me impunha um regime de secretismo, que me levou - devido à minha tenra idade e à falta de apoio, por ter sido deixado desamparado pelos meus pais -  à associação traumática e cruel de sexo com dor, vergonha e culpa.
Assim ele castrou o meu prazer, a minha felicidade e a minha paz interior. Ele castrou-me forçando-me ao constrangimento, à dor física - e moral - e ao silêncio.


Ele me encarcerou, até hoje, numa masmorra de expiação duma culpa que não é minha, dum crime que ele cometeu sobre a minha pessoa, a minha dignidade e a minha integridade. Uma culpa que é e sempre foi, apenas dele. Um crime da qual eu fui vítima e não cúmplice!


Eu fui a vítima e não ele! Eu sou quem merece remissão e não ele! Eu que quase perdi a minha vida para a dor e o sofrimento permanentes e não ele.
Eu é que mereço perdão! 
Eu mereço viver livre e feliz! Eu mereço viver com honra , dignidade e orgulho!
Eu mereço ser Eu!
Eu mereço ser completo e viver completo! Eu mereço ser amado e dar amor! Eu mereço ser um homem completo!


Eu não tenho que pedir desculpa por viver! Eu tenho que me orgulhar de ter sobrevivido e lutado por mim, pela minha integridade, pela minha felicidade! Eu me orgulho de ter sabido viver com honra!


Eu orgulho-me de ser Eu!


Eu sou um homem completo!


Nota: Para esclarecer alguns comentadores e quem possa ficar na dúvida, este relato é verdadeiro e foi a minha vida.



quarta-feira, 25 de maio de 2011

A BESTIALIDADE DUMA JUVENTUDE SEM FREIO

O incentivo da competitividade. A ausência de transmissão de valores e da importância deles para uma sociedade de sucesso (verdadeiro sucesso). A mais completa banalização dos impulsos primários, não explicados e controlados pelos que o deviam fazer: a família e o círculo social mais próximo da criança e do adolescente. O desinteresse de todo o sistema social e de estado pelo investimento numa verdadeira Educação. Vivemos agora na sociedade profetizada por Stanley Kubrick em "A Laranja Mecânica". Apertem os cintos e agarrem-se bem aos assentos pois a viagem vai ser cada vez mais dura!

Apresento-vos uma notícia da SIC sobre mais um triste caso de violência juvenil alardeada nas redes sociais. Peço a vossa atenção para todo o excerto aqui divulgado, pois o mais importante não são as imagens da agressão brutal de duas jovens para com uma colega, mas o debate, oportuno e esclarecedor, com uma pedopsiquiatra e um advogado, comentando o caso na sequência da notícia.

Muito esclarecedor o ponto de vista da pedopsiquiatra Ana de Vasconcelos, que nos brinda com um ponto de vista que foge dos padrões normais da condenação primária sem propostas de reabilitação.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

FOME LEGAL

Desordem e confusão em Maputo (01 de Setembro de 2010). O povo saiu à rua em protesto contra o aumento dos preços, o que leva a mais fome e dificuldade de sobrevivência para os mais pobres e desempregados que se amontoam nas periferias miseráveis da cidade ( como em todas as grandes cidades africanas).

Confrontos com a as cargas policiais resultaram em mortos (consta-se que seis, entre os quais duas crianças) e dezenas de feridos. Pneus incendiados nas ruas, estabelecimentos comerciais assaltados e vandalizados. A cidade parou e refugiou-se em casa. As vias de acesso ficaram bloqueadas e o sistema de transportes parado.

Agora receia-se que, a exemplo do que já aconteceu anteriormente, os protestos alastrem pelo resto do país.

Um cidadão lamenta-se: “Estávamos avisados de que isto ia acontecer... é pena que, como sempre, degenere em vandalismo...”. A Policia declarou que os protestos eram ilegais, pois nenhuma organização pediu a necessária autorização para se manifestar.

O governo moçambicano diz que o pais vive em democracia. Sim, já nos vamos habituando que nas democracias seja ilegal pedir melhores condições de vida. É ilegal que os pobres peçam que lhes saciem a fome. Só não é ilegal os abastados e detentores do poder esbanjarem indecentemente na maior das impunidades, engordando as contas bancárias com o pão que roubam da boca dos pobres.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

VENDO TV: NOTÍCIAS?!


Vivemos numa moderna versão da viciosa sociedade romana, aquando da sua fase mais decadente. A nova versão das infames arenas romanas são os noticiários televisivos.

Dos poucos tipos de programas a que assisto na TV, os noticiários são um deles. Porque procuro manter-me minimamente informado sobre o que vai pelo mundo, tenho que levar em cima com todo o tipo de notícia panfletária sobre violência e mais violência; de todos os tipos e para todos os gostos Um grotesco desfile de horrores.

Mas será que não haverá BOAS NOTÍCIAS por esse mundo fora? Haver há!... mas não vendem!

«O que o pessoal gosta mesmo é de sangue» respondia-me outro dia um amigo meu. E concordo com ele. Infelizmente instalou-se a cultura do voyeurismo sanguinolento. Quanto mais chocante melhor! Quanto mais horroroso melhor! A exposição abusiva e repetitiva até à exaustão das maiores perversidades e atrocidades. Como se um visionamento não fosse suficiente para informar.

Já todos sabemos que a televisão é o veículo educativo/formativo por excelência no nosso tempo presente. Creio que deveria haver por parte de TODOS um cuidado maior na responsabilização dos critérios de escolha dos conteúdos da programação televisiva. Podem-se manter critérios de livre informação sem se cair no exagero do intrusivo e abusivo.

Dizia o povo: «Junta-te aos bons e serás como eles, junta-te aos maus e serás pior que eles.»