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quinta-feira, 20 de março de 2014

O MACAQUINHO DO CIRCO



Sou eu! O português, o gringo (como aqui chamam aos estrangeiros), o forasteiro. Exibido como uma curiosidade, por alguns com arrogante escárnio disfarçado, por outros como troféu chique invejado, e também como uma futilidade charmosa, para ser logo esquecido e ignorado... descartado. Num meio de gente insegura e receosa, qualquer anomalia fora do padrão rígido determinado pelos tabus, é motivo de desconfiança. Grande desconfiança.

Saudado e acolhido com uma afabilidade imediata (mas não espontânea), essa mesma se esvai na primeira oportunidade de ser confrontado com um passado histórico mal aprendido e, interpretado com rancores seculares, alimentados por uma ignorância ostensiva.

Não tenho nome. Como gringo não mereço. Sou designado pela minha proveniência: “o português”. É mais fácil, para manter distâncias. Para me manter fora da esfera de intimidades. Afinal estrangeiro é um corpo estranho, que deve ser mantido sob observação e escrutínio constante. Tudo que faça de correcto “é porque estou assimilando a influência do meio em que agora vivo”, enquanto tudo que faça de errado “é a prova de que carrego em mim tudo o que de desprezível o colonizador histórico é acusado”.

O macaquinho do circo, que tem que ser domado e amestrado. “Para viveres cá tens de aprender a ser como nós!” Ou seja, perder a minha identidade, a minha individualidade. É, e continuará assim.

domingo, 9 de junho de 2013

SOU EU



“Uma imagem vale mil palavras.”

A imagem da vida por estas coordenadas. Até uma simples campainha de porta tem de estar protegida por uma grade, trancada a cadeado. C’est la vie à Brasil!

O que será mais precioso? Será que ainda resta algum reconhecimento de valores? Muitas questões e poucas respostas.

É isso! Este meu texto também se poderia chamar: Respostas. Tal como nas situações mais banais, as grandes questões da vida recebem o mesmo tipo de respostas: inapropriadas e inconclusivas.

- Quem é?
- Sou eu!
É a resposta mais comum quando alguém toca à campainha da porta e lá dentro de casa, alguém tenta certificar-se sobre a identidade da pessoa que pretende adentrar. Mas claro que é um “eu”. Todos somos um “EU”, cada um de nós. Só que o que se pretende saber é o nome – A IDENTIDADE – desse “eu”. Será assim tão difícil de entender?

Não faz muita diferença das respostas demagógicas que os políticos dão para tentar empurrar, com a barriga, as péssimas condições de existência dos cidadãos. Só que a mesma dormência letárgica que o povo apresenta perante esse discurso falacioso, é a mesma que leva alguém a responder “sou eu” quando o que o outro pretende saber é em que se define esse eu.

“Ah! Não tem nada a ver!” me dirão. Porque não é a mesma coisa.

Eu lhes mostro como é a mesma coisa: enfiem dois dedos num certo orifício anatómico ao fundo das costas e depois, de os deixarem lá algum tempo, retirem-nos e cheirem um de cada vez. Cheiram o mesmo né? Ora aí está como é o mesmo!

O mesmo é a indiferença. O mesmo é a apatia. O mesmo é seguir na mesma rotina maquinal e acéfala, sem se dar conta que o dito “eu” vai perdendo sentido e passando a ser uma circunstância amorfa caminhando por uma existência sem propósito. Sim, talvez seja por isso que esse “eu” não tenha necessidade de ter um nome, pois em nada se diferenciará dos milhões de “eus” que se resignam a um estar-sem-ser, num mundo idealizado para apenas alguns “serem”.

Então porque prover e  garantir segurança a não-eus? Deverá ser essa a macabra filosofia com que se justificarão os governos e os criminosos, para a ausência de valores e de ética.

- Quem é?
- Sou eu!
- Aqui também sou eu! Eu quero saber é o nome desse EU aí!!! Será muito difícil dizeres a porra do teu nome??? Ou preferes mesmo ficar aí, secando à porta?

sexta-feira, 6 de abril de 2012

MONOLOGANDO


Reflexão possível sabendo que no Brasil, em 2011, foram assassinados 266 homossexuais, pelo simples facto de o serem.

Nota prévia: O texto (é um ensaio ainda incompleto, mas que não quis deixar de partilhar neste dia santo de recolhimento e reflexão) escrevi-o em Abril de 2010 mas, infelizmente, mantém-se actual e válido para todo o mundo. Sem esquecer nunca que já estamos no século XXI!

A sexualidade é ainda o grande tabu da humanidade.

Um padre católico ugandês (assessor do governo) apoia (quanto a mim instigou) o governo do Uganda na sua determinação de criar uma lei que pune a prática da homossexualidade com penas pesadas que podem ir até à pena de morte.

No Brasil, na Faculdade de Farmácia da Universidade de São Paulo, estudantes publicam um opúsculo (O Parasita) com um artigo incitando à perseguição e violência sobre os homossexuais. Este tipo de expressão dum pensamento tacanho e chauvinista é chocante quando expresso por uma elite informada e esclarecida, que constituirá o futuro corpo de formação de opinião pública dum pais moderno e influente.

Os valores velhos e obsoletos caem por terra, desacreditados e incongruentes num mundo que se revolve em busca de novos rumos. Mas se no geral se aspira por evolução e avanço, individualmente os medos crescem. As massas não estão preparadas para renovações; nem grandes nem pequenas. Tentam encaixar o novo nos seus velhos modos de perceber e fazer as coisas.

A vivência do novo, do desconhecido, é um drama aterrorizante. E tal pavor leva ao refúgio no velho modo de agir e compreender; uma tentativa infantil de procurar refúgio debaixo das saias (por mais rançosas e pestilentas que estejam) da mãe Tradição.

Mas não só a homossexualidade é um tabu imenso. A sexualidade em geral é um enorme tabu para a humanidade; principalmente para as sociedades inspiradas e influenciadas pelas religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo). Socialmente a sexualidade humana foi utilizada como veículo de estratificação e discriminação, o que não deixa de ser mais uma das vergonhosas aberrações da visão anti-natura que a humanidade construiu de si mesma.

O infame Pecado Original do Livro (a Bíblia), em que a sedução é diabolizada, foi criado para providenciar o desenvolvimento daninho do complexo de culpa, que connosco carregamos, por uma emoção das mais puras e espontâneas da expressão da nossa libido. A sexualidade faz parte da nossa identidade natural. Qualquer tentativa de a regular e limitar é um atentado castrador que causa profundos transtornos na expressão individual e no equilíbrio emocional.

A sexualidade é o desejo instigador da vontade, que motiva o empreendimento e a concretização da criatividade; a criação. Atenção que falei em criação e não em reprodução! Limitar a sexualidade à reprodução é sufocar o mais importante motor de criatividade. É através da criação que o indivíduo se afirma como ser superior e independente. Daí a necessidade - por parte dos poderosos e governantes - de controlar a sexualidade para poder dominar e amputar a individualidade.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

CONVERSAR JUVENIL


Eu gostaria de falar contigo. Escutar a tua voz; o relato dos teus sonhos e ambições. Por muito imbecil que possa ser uma jovem mente, sempre terá algo a dizer; nem que seja parvo e soe oco. Mas tu não sabes falar. Expeles umas gírias, enrustidas numa risada idiota e nervosa, tudo encenado numa fanfarronice patética. Fico embaraçado de vergonha e retiro-me frustrado.

Até um bêbado tem algo a dizer. Mesmo que não passe de relatos parvos de episódios de bêbados e bebedeiras, com violência e muita ignomínia à mistura.

Quem não tem anseios e aspirações não tem vida. Será, quanto muito, um arremedo humano ensaiando uma existência idiota.



quinta-feira, 4 de novembro de 2010

GARDEN ROSE

Perdido na cidade... neurótica, anacrónica. Atafulhado de ansiedades paranóicas dum viver labiríntico que não leva a parte nenhuma, eu sou um produto urbano duma modernidade construída de ilusões vãs, desconstrutoras do ser humano que deveria germinar em cada um. Sou o resto (ZERO) dum sistema exploratório esclavagista branqueado em consumismo carrasco.

Na claustrofobia da cidade dos homens eu busco os moinhos que os ventos já desprezaram, os coretos onde mais nenhuma nota musical restou, os lares vazios de entes e afagos. Os sorrisos são esgares vesgos reflectidos em espelhos baços que mostram mais sombras que formas.

Mesmo assim eu continuo, jardineiro persistindo no encantamento torpe dum acreditar pueril que a harmonia ainda é possível.

A fantasia dum jardim florido, onde das rosas apenas restam os espinhos.

A visão turva das coisas que estão lá mas não queremos ver.


Nota: Este texto é a minha participação para o desafio de blogagem colectiva “Minha Ideia é meu Pincel” lançado pela amiga Glorinha L de Lion do Café com Bolo, inspirado no quadro “The Rose Garden” e Paul Klee.