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sexta-feira, 6 de abril de 2012

MONOLOGANDO


Reflexão possível sabendo que no Brasil, em 2011, foram assassinados 266 homossexuais, pelo simples facto de o serem.

Nota prévia: O texto (é um ensaio ainda incompleto, mas que não quis deixar de partilhar neste dia santo de recolhimento e reflexão) escrevi-o em Abril de 2010 mas, infelizmente, mantém-se actual e válido para todo o mundo. Sem esquecer nunca que já estamos no século XXI!

A sexualidade é ainda o grande tabu da humanidade.

Um padre católico ugandês (assessor do governo) apoia (quanto a mim instigou) o governo do Uganda na sua determinação de criar uma lei que pune a prática da homossexualidade com penas pesadas que podem ir até à pena de morte.

No Brasil, na Faculdade de Farmácia da Universidade de São Paulo, estudantes publicam um opúsculo (O Parasita) com um artigo incitando à perseguição e violência sobre os homossexuais. Este tipo de expressão dum pensamento tacanho e chauvinista é chocante quando expresso por uma elite informada e esclarecida, que constituirá o futuro corpo de formação de opinião pública dum pais moderno e influente.

Os valores velhos e obsoletos caem por terra, desacreditados e incongruentes num mundo que se revolve em busca de novos rumos. Mas se no geral se aspira por evolução e avanço, individualmente os medos crescem. As massas não estão preparadas para renovações; nem grandes nem pequenas. Tentam encaixar o novo nos seus velhos modos de perceber e fazer as coisas.

A vivência do novo, do desconhecido, é um drama aterrorizante. E tal pavor leva ao refúgio no velho modo de agir e compreender; uma tentativa infantil de procurar refúgio debaixo das saias (por mais rançosas e pestilentas que estejam) da mãe Tradição.

Mas não só a homossexualidade é um tabu imenso. A sexualidade em geral é um enorme tabu para a humanidade; principalmente para as sociedades inspiradas e influenciadas pelas religiões do Livro (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo). Socialmente a sexualidade humana foi utilizada como veículo de estratificação e discriminação, o que não deixa de ser mais uma das vergonhosas aberrações da visão anti-natura que a humanidade construiu de si mesma.

O infame Pecado Original do Livro (a Bíblia), em que a sedução é diabolizada, foi criado para providenciar o desenvolvimento daninho do complexo de culpa, que connosco carregamos, por uma emoção das mais puras e espontâneas da expressão da nossa libido. A sexualidade faz parte da nossa identidade natural. Qualquer tentativa de a regular e limitar é um atentado castrador que causa profundos transtornos na expressão individual e no equilíbrio emocional.

A sexualidade é o desejo instigador da vontade, que motiva o empreendimento e a concretização da criatividade; a criação. Atenção que falei em criação e não em reprodução! Limitar a sexualidade à reprodução é sufocar o mais importante motor de criatividade. É através da criação que o indivíduo se afirma como ser superior e independente. Daí a necessidade - por parte dos poderosos e governantes - de controlar a sexualidade para poder dominar e amputar a individualidade.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

PEÇO ESCLARECIMENTO

Se nasci num mundo heterossexual, fui educado por heterossexuais, andei em escolas com professores heterossexuais sob um regime definido por princípios heterossexuais e sempre me impuseram modelos heterossexuais sob ameaça de perseguição e aviltamento... porque razão eu sou homossexual???

Já me satura ouvir tanta gente preocupada com o que eu faço com os meus genitais! Não haverá nada mais premente e vital para o bem estar da humanidade??? Não será mais importante resgatar os pobres da miséria e os infelizes da injustiça? Não será mais importante acabar com as guerras e trazer paz ao mundo?

domingo, 27 de fevereiro de 2011

sábado, 24 de abril de 2010

OS TABUS E OS MEDOS (HOMOSSEXUALIDADE)


Um padre católico (sempre a Igreja Católica!) ugandês (assessor do governo) apoia (quanto a mim instigou) o governo do Uganda na sua determinação de criar uma lei que pune a prática da homossexualidade com penas pesadas que podem ir até à pena de morte.

No Brasil, na Faculdade de Farmácia da Universidade de São Paulo, estudantes publicam um opúsculo (O Parasita) com um artigo incitando à perseguição e violência sobre os homossexuais. Este tipo de expressão dum pensamento tacanho e chauvinista é chocante quando expresso por uma elite informada e esclarecida, que constituirá o futuro corpo de formação de opinião pública dum pais moderno e influente.

Os valores velhos e obsoletos caem por terra, desacreditados e incongruentes num mundo que se revolve em busca de novos rumos. Mas se no geral se aspira por evolução e avanço, individualmente os medos crescem. As massas não estão preparadas para renovações; nem grandes nem pequenas. Tentam encaixar o novo nos seus velhos modos de perceber e fazer as coisas.

A vivência do novo, do desconhecido, é um drama aterrorizante. E tal pavor leva ao refúgio no velho modo de agir e compreender; uma tentativa infantil de procurar refúgio debaixo das saias (por mais rançosas e pestilentas que estejam) da mãe Tradição.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

SEXTA-FEIRA

Depois de ter vencido todos os atrozes rituais, plenos de crises de ansiedade e subterfúgios de procrastinação, lá consegui sair de casa para ir ao aeroporto, onde compraria a passagem para o meu futuro. 
Havia sol e a temperatura era amena, dir-se-ia um dia primaveril, não fosse estarmos em véspera de carnaval.

Chegado na paragem do autocarro (Br; "ponto de ónibus"), que me levaria até à estação onde apanharia o comboio (Br; "trem") para Lisboa, fiquei esperando, juntamente com um grupo de adolescentes. Uma jovem vestia um equipamento de futebol, entretendo-se com a bola enquanto tagarelava com os amigos e amigas que esperavam o transporte. A conversa era sobre colegas que eram gays ou não, mas sem nenhum tom recriminatório ou de troça; apenas a busca de identificação entre iguais. 

O trânsito automóvel passava num sentido e noutro, enquanto na paragem todos esperávamos o autocarro. 
E do nada aproxima-se uma adolescente, abraçando contra o peito uns compêndios escolares, dirigindo-se à menina futebolista. As duas se abraçam com ternura. A menina da bola segura a cabeça da outra entre as mãos, afagando-lhe o cabelo e, olhando-a nos olhos diz com doçura: "Oh, meu amor!" Beijaram-se e depois voltaram todos a conversar, enquanto a menina da bola retomou a troca de passes com outros colegas que estavam por perto.

Como era sexta-feira de carnaval, alguns dos rapazes estavam com roupas femininas e usavam perucas longas, que balouçavam estouvadamente enquanto eles corriam atrás da bola. Por vezes a menina futebolista vinha até à paragem e abraçava a sua namorada, dando-lhe um beijo rápido, para logo correr de volta ao jogo.

A espera começava a ficar longa, pois eu aguardava em pé. Então na esquina da rua surgiu a frente de... "O autocarro, amor!" gritou a jovem que esperava na paragem. A futebolista acorreu prontamente e as duas se abraçaram com a mesma ternura e se despediram com um beijo. Nova carícia nos cabelos da menina dos livros, que se voltou e entrou no autocarro, com os olhos brilhando de felicidade. Eu entrei também.
Lá fora a outra acenava e soprava beijos com a mão, até os outros a chamarem de volta ao jogo.

Percebi que nem todos os nosso jovens de hoje são preconceituosos.

domingo, 30 de novembro de 2008

NOMES

Aos 19 anos comecei a trabalhar nas antigas fábricas da Quimigal (ex-CUF). Aos 19 anos os meus pais morreram e eu fiquei morando sozinho em casa deles, um apartamento enorme de 5 assoalhadas.

Os nomes que aqui referirei são verdadeiros, embora talvez alterados ou não, para que não haja uma identificação por terceiros; mesmo que já se tenham passado algumas décadas sobre os factos aludidos. Usei deliberadamente os nomes próprios, pois normalmente a maioria deles eram mais conhecidos pelos seus apelidos.

As fábricas da Quimigal já foram desactivadas e desmanteladas, mas delas guardo a memória das minhas aventuras sexuais, ou direi homossexuais, lá vividas. Período da minha vida, prolífero nas mesmas, até por dispor dum local privilegiado para a consumação desses desejos.

Quero ainda referir que todos estes casos se passaram com operários, tidos como a classe menos culta de toda a hierarquia laboral e social. Será mesmo assim? Não creio, pois alguns se mostravam interessados nas artes de ler e filosofar. Assim os comportamentos que aqui referirei não se podem justificar pela incultura, até porque tive o mesmo tipo de experiências com indivíduos de classe social mais elevada e com formação académica.

Jorge, casado, pai. Fomos amantes durante vários anos. Antes de mim já tinha tido outro caso extra-conjugal de um relacionamento homossexual estável, que também durou alguns anos.

Helder, casado, pai. Assumia a sua bissexualidade, embora a escondesse em casa. Foi ele que me introduziu na minha primeira experiência homossexual a três. Costumava dizer-me que eu era o complemento que faltava no seu casamento para ele ser feliz.

Josué afirmava-se como um curioso sexual. Namorava uma jovem, com quem se pretendia casar. Conheci-o numa sessão de sexo entre três homens.

Filipe, casado, pai. Era bem jovem como eu e a loucura juvenil levou a termos sexo no próprio autocarro que a empresa alugara para transportar os trabalhadores entre o local de trabalho e as suas zonas de habitação.

Paulin(h)o, casado, pai. Nunca chegou a ir a minha casa, pois dávamos largas aos nossos desejos sexuais em locais mais escondidos dentro da zona fabril. Eram aventuras empolgantes, devido ao risco que corríamos de sermos descobertos. Chegou a propor-me que se divorciaria da mulher se eu aceitasse viver com ele.

Simpliciano, homossexual que tentava por todos os meios esconder a sua homossexualidade. Acabou por casar, "para manter secreta a sua homossexualidade", como ele me afirmou. "Mas continuarei a procurar homens para ter relações sexuais com eles" assegurou-me ainda.

José, jovem ainda, namoriscava raparigas e encenava tentativas de resistência aos meus avanços sexuais. Acabou por ceder de boa vontade, pois por muito que se mostrasse incomodado com as minhas tentativas e assédios, nunca deixou de me procurar, mesmo em minha casa. É casado e pai.

Vítor, casado e pai. Perseguiu-me até eu anuir em ter relações sexuais com ele. Também, certa vez, fez-se acompanhar dum amigo para termos uma sessão de sexo a três.

Ivo, casado, pai. Também me cortejou até eu aceder a ter relações sexuais com ele.

Hugo, casado, pai. Tínhamos sempre relações sexuais nos balneários, quando mais ninguém se encontrava lá.

Helder (outro Helder), casado, pai. Esperávamos que todos abandonassem o balneário para depois termos relações sexuais lá.

Júlio, casado, pai. Bissexual assumido. Perseguia-me continuamente para ter relações sexuais com ele.

Octávio, casado, pai. Cortejava-me com muita delicadeza, mas inibia-se quando era o momento de me propôr aquilo que era sua intenção: o foder comigo. Eu perante a sua cobardia nunca fiz o mínimo esforço de o encorajar, embora desejo não me faltasse. Contudo a sua cobardia indignava-me, por isso o punia não o ajudando a vencê-la e a concretizar os seus mais que óbvios desejos.

Ernesto, casado. Cortejavamo-nos romanticamente. Morreu, ainda bem jovem, de leucemia, antes de havermos consumado o desejo mútuo de nos possuirmos sexualmente um ao outro.

João, casado, pai. Fanfarrão a quem acabei por aceder às suas múltiplas tentativas de me seduzir. O seu entusiasmo e desejo eram de tal modo empolgados que, no primeiro e único encontro íntimo que tivemos atingiu o orgasmo nos preliminares, ainda antes de havermos consumado qualquer prática de cópula.

Flávio, casado, pai. Indivíduo bem disposto e aventureiro, chegámos a ter contactos sexuais perante terceiros, sem que estes dessem por isso. Éramos peritos na arte da dissimulação. E isso divertíamo-nos imenso. Afinal o sexo também pode ser lúdico.

São apenas alguns exemplos da minha experiência com heterossexuais assumidos, mas sempre prontos a se envolverem sexualmente com outros homens.

Não referi aqui os casos que durante anos me assediaram e a cujas tentativas resisti, por uma razão ou outra. Afinal com uma lista de opções tão variada eu dava-me ao luxo de escolher os que mais me agradavam.