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quarta-feira, 23 de maio de 2012

BATA BRANCA




Esperei o fim da tarde e a trégua do flagelo solar. Estava farto de ficar em casa olhando o vazio imenso da tela do computador e das redes sociais. Saí e a noite iniciava-se calma e tranquilizadora. Com a música marcando o ritmo dos meus passos, lá segui de auscultadores nos ouvidos e apoiado na minha inseparável bengala.

Corpos reluzentes de músculo e esforço circulavam em corrida, pelo trajecto sinalizado ao redor da lagoa. O suor emprestava brilho às tezes morenas e viris daqueles que se expunham semi-nus (vestindo apenas calção, os praticantes mais esforçados e esbeltos) ao olhar deliciado e devorador,  dos que sabem apreciar a beleza do corpo masculino.

No parquinho infantil crianças gargalhavam nos engenhos de diversão, sob o olhar avisado dos pais e mães que se juntavam em pequenos grupos comentando as habituais banalidades de ocasião. Nos quiosques-bar convivas confraternizavam indiferentes à verborreia omnipresente dos infalíveis televisores. Idosos, de ambos os sexos, também improvisavam o seu treino de manutenção da longevidade saudável, caminhando em duos ou trios, envergando com orgulho as suas roupas desportivas e calçado apropriado. Toda a gente queria se sentir bem com a vida, tranquilo e animado.

Num recanto sossegado, mas de passagem obrigatória, bem visível e acessível para todos, estava uma mesa de esplanada, com duas cadeiras. Numa das cadeiras uma mulher jovem, envergando uma bata branca, dialogava animadamente com um grupo que se tinha reunido em volta. Sobre a mesa percebi instrumentos médicos de auscultação e medição de pressão arterial.

Sorri feliz por saber que há gente que se lembra de cuidar dos outros, mesmo no seu tempo de laser. Sem se importar de prolongar um pouco mais o seu dia de trabalho, mesmo que seja em regime voluntário e sem remuneração.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

FADIGA DA ALMA

Cansado... Cansado de lutar contra mim. Contra as fobias que me dominam e reduzem a minha vontade a uma expressão insignificante de...

Cansado de ser sempre tarde... de ter chegado depois... de ter arrancado antes... sem destino reconhecido... Porque o meu tempo é mais lento - muito mais lento - que o tempo universal (o tempo de todos). E quando eu exprimo o gesto... já o momento se foi.

Cansado de ficar sempre à porta. Retido pelo umbral. Sem conseguir encetar um passo que seja, para onde quer que queira ir... ou mesmo não ir.

Cansado de tanta solidão, sem conseguir ficar só. Libertadoramente só!

Cansado de não ser escutado e ser mal-interpretado. Cansado de ser ignorando com perigoso descuido.

Cansado de lutar contra uma ânsia de terminus, que muitos (muitos de muitos, de vós, quase todos) poderão achar pateticamente trágica, mas que para muitos outros se torna terrivelmente real. E, depois de saciada, irremediavelmente definitiva.

Cansado de esperar sem esperança, por saber que só posso contar com algo tão básico como o mais primitivo instinto de sobrevivência. Já que as razões da razão aos humanos não assistem, nos tempos sem tempo em que todos se lançam alienadamente. Cegos!

Porque a depressão é um cansaço contínuo.
A depressão é uma doença, que exige tratamento psicológico e farmacológico.
A depressão não é um enfado momentâneo, que se resolve indo dar uma volta pela marginal (como já um agente médico teve o desplante de se referir ao meu problema de saúde).
A depressão ainda é um tabu, que poucos querem reconhecer como epidemia na nossa sociedade actual.
A depressão ainda é vista como preguiça; um dos sete pecados mortais, estigmatizados pela moral religiosa.