sexta-feira, 6 de agosto de 2010

IPANEMA



O texto: foi escrito no Rio de Janeiro aquando da minha estadia em terras cariocas em 2008 e havia sido publicado anteriormente aqui.

A foto: como diria a amiga Clarice, a foto veio daqui. É um postal ilustrado feito a partir duma imagem antiga onde se pode perceber um pouco do que eu já havia falado anteriormente; idealizar como teria sido a paisagem antes da edificação das nossas cidades actuais.

A dedicatória: à Mari e a todos os meus amigos cariocas, de quem tenho muitas saudades.

Sexta-feira, 14 de março de 2008

Há sempre dois lados; duas faces; dois mundos.

Ontem andei passeando-me por Ipanema e Copacabana. O outro mundo do Rio de Janeiro; o Rio de Janeiro com que todos sonhamos. Um mundo muito distante do Rio de Janeiro dos bairros da periferia e das favelas. Um mundo idílico de bem viver e desfrutar dos prazeres da cidadania, numa urbe moderna e que reluz como jóia entre as mais favorecidas do planeta.

Ipanema; um bairro onde harmoniosamente ladeiam o comércio, os serviços e os condomínios de habitação. Por aqui e por ali um hotel, que em nada se destaca dos condomínios de classe alta que o ladeiam. Ao fim da tarde uma tranquila agitação daqueles que regressam ao conforto dos seus lares, cruzando-se com o sexagenário que sai de bermudas, para passear o seu poodle, aproveitando a leve brisa marítima que chega da marginal ali ao lado. Na esplanada do boteque “A Espelunca”, agrupam-se amigos, ainda de camisa e gravata, num convívio coroado pelos copos de cerveja gelada. Embora com o nome sui generis, que achei divertidíssimo, de espelunca é que o bar não tem nada; pelo contrário o bom gosto da decoração exótica e bem tropical, testemunhava o requinte de quem quer servir para agradar. As ruas arborizadas e de passeios largos, profusamente ajardinados, são um convite a um passeio tranquilo e reparador, ao fim dum dia de trabalho. Um bairro saído da lâmpada de Aladino.

É este Brasil que eu quero. É este Brasil que os brasileiros merecem. É este Brasil que todos os brasileiros deveriam construir.

Mas enquanto deambulava pela lânguida Ipanema apenas uma palavra me vinha à mente: Educação.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

ESSA AGORA!...

Chamem-me estúpido mas não façam de mim parvo!

À dias o novo cabeça de topo da BP veio anunciar o sucesso dos esforços de obstrução da fuga de petróleo no Golfo do México (no dia do aniversário do presidente dos USA), minimizando ainda o impacto que o derrame teve e terá nos ecossistemas locais. Chegou a alvitrar que a natureza estava fazendo a maior parte do trabalho ao diluir e evaporar o crude que não fora recolhido pelos barcos de limpeza. O quê??? Assim em menos de nada? Mas temos magia ou milagres agora, no mundo dos petrolíferos? Ou a Natureza deu numa de Pepe Rápido onde costuma levar décadas?

Mas quem se convence que depois de três meses derramando petróleo (mais de 780 milhões de litros de crude) sem controlo no mar o impacto seja mínimo?

No dia do seu aniversário Barak Obama anunciou sem grande ênfase a notícia do sucesso da operação de obstrução. Hum...! É suspeito! O que politico mais gosta é de dar boas notícias, mais ainda no dia do seu aniversário. Porquê tanto low profile neste caso?

Já todos sabemos que aí anda muito esturro, mas convém não esquecer de pensar com as próprias cabeças e não nos deixarmos embalar nas cantilenas do costume. Mais uma vez tudo fica envolto em grandes maquinações, quando o caso trata de petróleo.

Hoje começaram a injectar cimento na boca do poço com o intuito de o bloquear.

Agora vai ser o tempo de propaganda orquestrada para desviar as atenções do caso e mascarar toda a sujeira feita pelos políticos e economistas sem escrúpulos. O festival de patranhas vai começar!

OU DÁS OU LEVAS

Afecto por coacção?!

Vi nas notícias que os legisladores brasileiros preparam uma lei que penaliza aqueles que abandonam afectivamente os idosos em asilos e lares da terceira idade, impondo-lhes indemnizações por danos morais. O propósito da lei é levar os parentes menos atenciosos a visitarem os seus progenitores e familiares mais velhos nos lares de abrigo, onde os deixaram por não poderem, ou não quererem, tratar deles convenientemente.

As intenções de salvaguarda duma velhice tranquila e digna para os idosos são louváveis. Mas será que eles querem mesmo um falso carinho? Ou um sorriso cínico? Ou quererão mesmo ouvir a cada visita “apenas estou aqui porque sou obrigado”?

Eu não acredito que se ame por coacção. Não acredito que nenhum tipo de afeição possa ser inspirado por constrangimento.

Já falei aqui no blog que em Portugal, devido ao aumento do desemprego, aumentou o número de famílias que optaram por tomar conta dos seus idosos em casa, havendo mesmo casos em que os foram buscar aos asilos. O dinheiro das suas reformas, mesmo sendo pouco, ajuda a compor o orçamento familiar num período de penúria, além de que com mais gente desocupada em casa sempre sobra alguém que possa ajudar os velhinhos nas suas escassas rotinas diárias. Ora parece que o problema está na penúria de recursos, tanto financeiros como humanos. Creio que com horários de trabalho menos sobrecarregados e com melhores salários e pensões de reforma se resolveriam muitos problemas das famílias.

O abandono massivo de idosos em lares e asilos tornou-se uma prática comum nos tempos modernos. Convém perguntar porquê. E reflectir.

PS: para os não-lusitanos a explicação do título. “Ou dás ou levas!” é uma expressão idiomática portuguesa que sugere: “ou fazes o que é esperado ou serás punido!”

CADEIA EM AUTO-GESTÃO

Assistir a um noticiário televisivo por vezes pode tornar-se um exercício de incredibilidade. Kafkiano até!

No Rio de Janeiro as autoridades oficiais descobriram a existência de um presídio gerido pelos próprios presos. Elementos da corregedoria de polícia e promotores de justiça em inspecção foram recebidos à porta por um presidiário com telefone na mão, enquanto outro tinha em seu poder chaves de algemas e de celas.

Um pequeno grupo de detidos que administrava o estabelecimento cobrava dinheiro aos outros presos para que pudessem circular livremente, assim como a acederem a mordomias, tais como dormir em cela com ventilador e televisão.

Na cadeia os inspectores apenas encontraram um agente oficial, que nem sabia responder sobre o número de encarcerados, tendo sido preso na ocasião. Também foi detido outro agente policial que não se encontrava no seu posto aquando da inspecção.

Quem disse que presos com chave da cadeia na mão fogem???

Como diria o saudoso Fernando Pessa: “E esta, hein?”

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

MUNDO TELEVISÃO

“Depois de assistirmos às notícias sobre raptos, assassinatos, acidentes de viação, mortos palestinianos e israelitas, descobertas de centenas de vítimas taliban asfixiadas em contentores no Afeganistão, surge uma notícia que, como uma luz divina, redime todo o mal espalhado pela Terra: nasceu um bebé panda no Zoo de Pequim! O apresentador sorri largamente, pisca mesmo um olho cúmplice aos telespectadores. Depois das imagens de futebol, remata enfim, com um tom Sábio: «É a vida!»”

José Gil in “Portugal, Hoje. O medo de existir”

O excerto que transcrevo, do filósofo português José Gil, retrata uma realidade que por vezes, à força do hábito, nos passa quase despercebida (ou mesmo com indiferença), ainda que estejamos olhando directamente para ela: os conteúdos dos noticiários televisivos e o modo como a realidade do mundo chega até nós. A violência, a tragédia, a falibilidade da vida acabam por banalizar-se e quase tornar-se elementos de ficção novelesca. Afinal o maior atractivo das televisões para o público são as telenovelas...

A força do hábito de uma emoção sofrida por longo período acaba por entorpecer a capacidade de reacção aos estímulos que a provocariam. Assim uma sociedade pode tornar-se um universo de violência em que os seus cidadãos vivam num permanente clima de medo recalcado, como se isso fosse a coisa mais natural.

Não é! Nunca foi, nem nunca será! É necessário um esforço de alerta para nos mantermos acima de qualquer torpor que minimize a nossa capacidade humana de perceber a realidade em nosso redor e reagir emocionalmente.

Vivemos numa civilização que nos amalgama e uniformiza, numa tentativa de nos desumanizar. Isso é uma coisa ímpia de se fazer. Qualquer mínimo gesto nesse sentido o é. Urge que nos mantenhamos alerta. Mas para o estarmos temos de reconhecer a necessidade de o fazermos. E para tal é necessário educar, alertar os espíritos para o real sentido da vida, para o real sentido das coisas, para o real valor da condição humana.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

TEMPOS MODERNOS

Certa vez li num periódico um comentário dum leitor anónimo que dizia: “ Os governos fazem campanhas afirmando que o tabaco mata, as drogas recreativas matam, que o álcool mata, mas ainda não vi nenhuma campanha afirmando que trabalhar que nem uma besta mata”. As premissas podem não ser as mais convenientes, mas não deixa a réplica de chamar a atenção para uma questão fundamental da existência humana no mundo urbano actual.

O sistema laboral da nossa civilização é desumano, tal como a ideologia que lhe deu forma e propósito. A forma é o esclavagismo assalariado e o propósito é a subjugação completa ao sistema capitalista que o criou: o enriquecimento incondicional para a manutenção do poder pelo poder.

Mas a expressão fulcral na afirmação do leitor anónimo é: “Trabalhar que nem uma besta mata!” Mata porque somos (cada um de nós) um todo complexo e respondendo dum modo orgânico a todos os estímulos a que somos sujeitos.

O sistema pendular de vida (casa/trabalho trabalho/casa) que temos não é natural. Mais ainda quando coreografado com o recurso a todos os incómodos duma existência urbana.

Morar a mais de três horas (no total de ida e regresso) do local de trabalho é um absurdo atentado à saudável sobrevivência de qualquer ser. Tempo esse gasto em transportes colectivos apinhados de gente angustiada e circulando com toda a dificuldade inerente a cidades povoadas muito além do conveniente.

O longo período de trabalho , que consome as melhores horas do dia, em desfavor de outras actividades fundamentais como o convívio familiar, social e o ócio direccionado ao desenvolvimento pessoal, é um brutal atentado ao desenvolvimento do indivíduo e uma condenação malévola do nosso propósito maior de vida: evoluir.

A sugestão condicionadora de que o propósito de vida está na aquisição de bens supérfluos e que para tal há necessidade de trabalhar desalmadamente para os adquirir (num ciclo perverso de produção/consumo com o único fito de satisfação dos ideais de ganância dos dominadores) é aviltante.

Manter trabalhadores ocupados num horário de trabalho extenso quando milhares de outros se encontram desempregados e com carências, tanto eles como as suas famílias, apenas para manter os absurdamente elevados níveis de lucro da classe empregadora e assim sustentar o seu poderio e domínio, é no mínimo perverso.

Trabalhar excessivamente e em más condições não é saudável (e o que não é saudável é pernicioso), pois origina toda uma série de mal-estares de origem orgânica e mental, que estão na origem de todos os distúrbios físicos e mentais que assolam a quase totalidade da população contemporânea.

Temos de deixar de ser máquinas ao serviço das classes dominantes, para passarmos a ser seres humanos.

Agostinho da Silva defendia que o futuro da humanidade estava na civilização do ócio. Entendam isso como quiserem.

GANAS DE PODER

LAVAGEM CEREBRAL, EXTORSÃO, OBSESSÃO PELO PODER
Vader sentir-se-ia um amador