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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

NUVEM DE VAPOR



O mundo contemporâneo chegou de enxurrada numa grande nuvem de vapor. A revolução industrial. Uma catadupa de descobertas e avanços tecnológicos passaram a fazer parte do nosso quotidiano e agora também a electrónica e a informática são banais na nossa rotina diária em todas as nossas actividades. A ciência evoluiu admiravelmente. E a humanidade? Mais de 380 milhões de crianças vivem abaixo do nível de pobreza.

sábado, 1 de outubro de 2016

GANHARÁS O PÃO


O peso da religião ainda é imenso nas nossas sociedades modernas. Até porque convém para o sistema económico que ela tanto apoia com o seu “ganharás o pão com o suor do rosto”. Através desse ditame imperioso o cristianismo sempre justificou todo o tipo de abusos predatórios e esclavagistas.
Não somos máquinas – ao invés do delírio romântico apregoado na febre da revolução industrial -  somos até providos de alma. Esse ideário de propósitos esclavagistas assenta maravilhosamente aos interesses inescrupulosos da dominante classe empresarial, ilibando de culpa a imposição dum modo de existência que não nos provê verdadeiro bem-estar ou felicidade. Se alguns de nós conseguem uma abastança material que lhes proporcione conforto, mesmo esses logo percebem que só isso não basta. Uma alma sã não se compraz numa bem-aventurança  moldada na amargura e sofrimento, sejam próprios ou alheios.

Agostinho da Silva afirmava ser anti-natura a condição de agente de produção do ser humano. Não nascemos para trabalhar mas sim para criar e para isso necessitamos de nos dedicar à ociosidade. Desse modo ele profetizava a sociedade do ócio, como o destino da humanidade,  vendo nos avanços tecnológicos e na robótica a possibilidade de concretização desse ideal. O Homo Divinus como entidade de vocação contemplativa e espiritual.

Imagem: "Angelus", Jean-François Millet

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

DESUMANIZAR


Quando me dizem que a Bayer comprou a Monsanto por 66 mil milhões de USD eu sinto-me indignado com esta industrialização da humanidade. No princípio da revolução industrial, em pleno século XIX, até era engraçado andar em carruagens puxadas por locomotivas a vapor, com as maquinarias facilitando a vida das pessoas, tanto nas deslocações a grandes distâncias como nos modos de produção de bens. Mas agora estamos em plena industrialização da própria humanidade, em que as pessoas são vistas como parte funcional do grande esquema industrial de produção e consumo, com vista à obtenção máxima de lucros para as grandes corporativas e seus accionistas/proprietários. Somos todos peças da grande engrenagem produtiva/consumista. Para trás ficou o propósito de evolução do indivíduo guindando-se a planos mais elevados de consciência. Perante a premência da progressão do sistema civilizacional/económico o indivíduo - o ser humano - foi relegado para o plano de mera ferramenta cuja existência apenas é validada desde que integrada nos planos do monstro corporativo.

Lembra-me o caso da vil postura do todo poderoso presidente da Nestlé que afirma ser a água algo demasiado precioso para estar disponível como um bem de direito universal, pelo que deveria ser privatizada toda a água potável do planeta (claro que ele iria reclamar a patente para a sua omnipotente multi-nacional), assim cada um teria que pagar pelo seu usufruto. Isso sim, eu chamo de blasfémia. Isso sim, eu chamo de encarnação do mal a quem advoga e tenta concretizar uma monstruosidade dessas. Se a clássica escravatura foi abolida por decretos (embora não completamente na prática), agora cria-se uma nova escravatura em que o indivíduo tem que se sujeitar a todos os ditames predatórios dos grandes mandantes do empresariado e da economia.

terça-feira, 3 de abril de 2012

POEMA POSSÍVEL


Somos gordos, feios, grosseiros, imundos.
Somos uma praga nauseabunda empestando o mundo.
Somos o pior que a inteligência, ou a falta dela, pode produzir.
Somos a escória, a ralé, o resultado nojento da evolução da arrogância gananciosa.
Somos o dejecto duma espécie que se perdeu em si mesma.
Somos a nódoa que macula o planeta!


Nota do poeta: Não viso ninguém em particular, senão a humanidade como um todo. Se alguém se sentir ofendido... pois que se sinta. Eu não irei pedir perdão a ninguém!

domingo, 10 de abril de 2011

GIGANTE

Terá a existência insondáveis mistérios, avassaladores perante a nossa pequenez?

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

TEMPOS MODERNOS

Certa vez li num periódico um comentário dum leitor anónimo que dizia: “ Os governos fazem campanhas afirmando que o tabaco mata, as drogas recreativas matam, que o álcool mata, mas ainda não vi nenhuma campanha afirmando que trabalhar que nem uma besta mata”. As premissas podem não ser as mais convenientes, mas não deixa a réplica de chamar a atenção para uma questão fundamental da existência humana no mundo urbano actual.

O sistema laboral da nossa civilização é desumano, tal como a ideologia que lhe deu forma e propósito. A forma é o esclavagismo assalariado e o propósito é a subjugação completa ao sistema capitalista que o criou: o enriquecimento incondicional para a manutenção do poder pelo poder.

Mas a expressão fulcral na afirmação do leitor anónimo é: “Trabalhar que nem uma besta mata!” Mata porque somos (cada um de nós) um todo complexo e respondendo dum modo orgânico a todos os estímulos a que somos sujeitos.

O sistema pendular de vida (casa/trabalho trabalho/casa) que temos não é natural. Mais ainda quando coreografado com o recurso a todos os incómodos duma existência urbana.

Morar a mais de três horas (no total de ida e regresso) do local de trabalho é um absurdo atentado à saudável sobrevivência de qualquer ser. Tempo esse gasto em transportes colectivos apinhados de gente angustiada e circulando com toda a dificuldade inerente a cidades povoadas muito além do conveniente.

O longo período de trabalho , que consome as melhores horas do dia, em desfavor de outras actividades fundamentais como o convívio familiar, social e o ócio direccionado ao desenvolvimento pessoal, é um brutal atentado ao desenvolvimento do indivíduo e uma condenação malévola do nosso propósito maior de vida: evoluir.

A sugestão condicionadora de que o propósito de vida está na aquisição de bens supérfluos e que para tal há necessidade de trabalhar desalmadamente para os adquirir (num ciclo perverso de produção/consumo com o único fito de satisfação dos ideais de ganância dos dominadores) é aviltante.

Manter trabalhadores ocupados num horário de trabalho extenso quando milhares de outros se encontram desempregados e com carências, tanto eles como as suas famílias, apenas para manter os absurdamente elevados níveis de lucro da classe empregadora e assim sustentar o seu poderio e domínio, é no mínimo perverso.

Trabalhar excessivamente e em más condições não é saudável (e o que não é saudável é pernicioso), pois origina toda uma série de mal-estares de origem orgânica e mental, que estão na origem de todos os distúrbios físicos e mentais que assolam a quase totalidade da população contemporânea.

Temos de deixar de ser máquinas ao serviço das classes dominantes, para passarmos a ser seres humanos.

Agostinho da Silva defendia que o futuro da humanidade estava na civilização do ócio. Entendam isso como quiserem.

terça-feira, 6 de julho de 2010

A FALSA QUESTÃO - EDUCAÇÃO

Na foto: "A Escola De Platão" de Jean Delville

“Quanto custa?” é a falsa questão. Válido é questionar “Pode ser feito?”.

“Quanto custa?” é uma questão de índole capitalista que revela o pensamento burguês sobre propriedade e lucro.

A evolução da Humanidade não tem preço.

A economia tem de estar ao serviço da humanidade e não ao serviço do seu próprio sucesso. A humanidade não tem de ser escrava da economia.

O discurso de que o desenvolvimento humano depende do sucesso económico é uma falácia capitalista com o único objectivo de escravizar todos a um sistema perverso de valores desiguais.

A grande revolução será focalizar o objectivo do esforço humano na formação ética e espiritual da humanidade. Educar verdadeiramente. Educar para a igualdade e a harmonia. Uma verdadeira fraternidade humana universal.

Parece este ser um discurso religioso?! E não será a religiosidade um sentimento intrinsecamente humano? O espírito religioso sempre esteve presente na história da humanidade e do seu desenvolvimento; mesmo os seus movimentos ateus assumem contornos dum missionarismo febril.

Não pode haver verdadeira elevação de consciência sem educação nem aprimoramento ético e espiritual. Para se construir um mundo mais justo tem de se começar por reformular todo o espírito educacional; mudar o foco da educação para uma verdadeira formação humana. O actual modelo educacional apenas serve os interesses economicistas do sistema capitalista. O ensino tem de voltar a se focalizar na formação literária como seu núcleo base e partir para a formação científica numa fase secundária. Que se parta duma ideia alcuiniana de trivium (gramática, lógica e retórica) e quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música) para a criação dum modelo de nova escola, com ênfase nos valores humanos individuais e humanistas.

Poderá parecer uma proposta retrógrada de modelo de ensino, por vir observar modelos medievais de estruturação universitária, mas por vezes é olhando atrás que se aprende a escolher o caminho em frente.

A questão não é “Quanto custa revolucionar o ensino?” mas sim “Pode ser feito?”. E a resposta é “Pode, temos todas as condições humanas, materiais e técnicas para o fazer.”

segunda-feira, 28 de junho de 2010

GAIOLAS

É assim que vivemos (amontoados, apinhados, engaiolados que nem animais amestrados que somos, prontos a saltar e guinchar à voz de comando) pois todo povo tem aquilo que merece. E enquanto um povo não perceber que tem de se erguer e construir o seu existir como ser humano digno desse nome... Haveremos de continuar a ser os saguins de diversão dos poderosos que engordam com a nossa seiva vital.

É tempo de o povo perceber que a vida está muito além de novelas e futebois.
Viver dignamente é muito mais que ter um carro à porta ou um novo modelo de telefone móvel 3G, 4G, 7G, ou o raio que te parta G!
Cada vez mais somos a sociedade da imbecilidade. Os objectivos de vida das massas populares resumem-se a poder de compra e capacidade de endividamento. Não nos importamos com o quão escravo seja o nosso trabalho desde que tenhamos o dinheiro para satisfazer as falsas necessidades que nos incutem nas nossas mentes pequeninas e viciadas.

Estamos em pleno século XXI!!! Há milhares de anos que tentamos desenvolver aquilo que chamamos de civilização humana. Mas cada vez é menos humana. Se isto é a civilização digna duma humanidade inteligente... não parece!

Uma sociedade é constituída por todos os seus membros e a civilização o resultado dos seus esforços por se aperfeiçoar. Tal é trabalho para ser feito de mote voluntário e participativo. Tem de ser o povo a sair da sua imbecilidade e exigir o seu lugar no esquema das coisas. Mas um lugar consciente e activo, de agente empenhado.

Basta de saltar quando nos assobiam!

Basta de ficar apodrecendo frente ao televisor com o sorriso idiota de quem não sabe pensar por si!

Se civilização é cultura e saber, vamos então para a rua procurar a vida e aprender o mundo em que ela se desenrola!

Estou farto desta mesmice imbecil de quem anda à toa e ao sabor de modas e interesses de mercado.

E ainda se admiram de vivermos amontoados em gaiolas?...