Alguns energúmenos pixaram o monumento aos
bandeirantes em São Paulo e agora outros imbecis exaltam o gesto.
domingo, 2 de outubro de 2016
sábado, 1 de outubro de 2016
GANHARÁS O PÃO
O peso da religião ainda
é imenso nas nossas sociedades modernas. Até porque convém para o sistema
económico que ela tanto apoia com o seu “ganharás o pão com o suor do rosto”. Através
desse ditame imperioso o cristianismo sempre justificou todo o tipo de abusos
predatórios e esclavagistas.
Não somos máquinas – ao invés do delírio romântico
apregoado na febre da revolução industrial -
somos até providos de alma. Esse ideário de propósitos esclavagistas
assenta maravilhosamente aos interesses inescrupulosos da dominante classe
empresarial, ilibando de culpa a imposição dum modo de existência que não nos
provê verdadeiro bem-estar ou felicidade. Se alguns de nós conseguem uma
abastança material que lhes proporcione conforto, mesmo esses logo percebem que
só isso não basta. Uma alma sã não se compraz numa bem-aventurança moldada na amargura e sofrimento, sejam
próprios ou alheios.
Agostinho da Silva
afirmava ser anti-natura a condição de agente de produção do ser humano. Não
nascemos para trabalhar mas sim para criar e para isso necessitamos de nos
dedicar à ociosidade. Desse modo ele profetizava a sociedade do ócio, como o
destino da humanidade, vendo nos avanços
tecnológicos e na robótica a possibilidade de concretização desse ideal. O Homo
Divinus como entidade de vocação contemplativa e espiritual.
Imagem: "Angelus", Jean-François Millet
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sexta-feira, 30 de setembro de 2016
FLASHES DE ELEIÇÕES NUM PAÍS EM GUERRA?
Flashes de eleições num pais em guerra?
O reino do caos. Atentados à bomba ou a tiro,
contra candidatos eleitorais. Políticos em campanha mortos à bala em surtidas
criminosas. Dir-se-ia um pais em guerra. Talvez seja uma nação em guerra
consigo própria, com o seu descaso, com o seu comodismo, com a sua indiferença.
Pobre povo tolhido nos seus vícios e hábitos descuidados.
No meio da confusão o anúncio da descoberta de
doações milionárias a partidos e políticos para as suas campanhas, por parte de
desempregados e beneficiários de bolsa família (exactamente os mais pobres e
desabonados da sociedade. Alguém está a querer enganar alguém... Ninguém
acredita que eles tenham doado tais verbas, mas que malfeitores tenham usado os
seus nomes e registos para encobrir doações ilegais.
Assim prossegue o gigante aos tombos e
tropeções, na busca dum futuro e dum mundo melhor.
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segunda-feira, 26 de setembro de 2016
UM EM TRÊS
Um em cada três brasileiros responsabiliza as
vítimas pelos estupros que sofreram. “Por não se vestirem decentemente”, “por
serem provocadoras”, “por não se comportarem e darem ao respeito”,...
Sintomático da mentalidade tacanha e machista que imprime a cultura social
brasileira ainda em pleno século XXI. Não vamos escamotear tentando argumentar
que isso é uma opinião de homens, pois a percentagem de mulheres que também
assim pensa é do mesmo modo elevadíssima. É uma questão de educação; aquela que
é transmitida pela família, logo pelas próprias mães também, que foram criadas
numa cultura machista e, não só aceitam, como reverberam na sua descendência
essa tradição perversa e anti-natura. Como país obcecadamente religioso, o povo
não faz muito mais que repetir os padrões e conceitos que a religião sempre
lhes impôs: sujeição da mulher, estigmatização da mulher, demonização da
mulher,...
sábado, 24 de setembro de 2016
CAI, NÃO FICA NADA
Mandado de prisão para Guido Mantega.
“Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai
o rei de paus, cai não fica nada” são os versos que me ocorrem com todo este
suceder de denúncias e acusações. Cai o Dirceu, cai a Dilma, cai o Lula, cai o
Mantega e o PT estrebucha para não cair também. A nação atónita assiste ao
desfile de revelações como a uma parada surreal de vis trapaceiros. A pandilha
estava toda unida no estratagema. Um novelo sem fim e a cada nó desatado mais
uma revoada deles caindo na rede. É chocante. Escandaloso. Mas parece que algum
povo não se importa muito com isso, pois continua a louvar e santificar essa
corja populista e criminosamente demagoga.
Ingenuidade não chega ao ponto de acreditar que governantes ávidos de poder
e controladores não soubessem do que se passava ao seu redor sobre estratagemas
dos quais eram beneficiários directos. Essa do “não sabia de nada”, “não
encontrarão nada em meu nome” só ilude trouxas que gostam de passar por
idiotas.
Cá por mim continuo com a canção do Ivan Lins:
“Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai não fica
nada...”
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sexta-feira, 23 de setembro de 2016
DESUMANIZAR
Quando me dizem que a Bayer comprou a Monsanto
por 66 mil milhões de USD eu sinto-me indignado com esta industrialização da
humanidade. No princípio da revolução industrial, em pleno século XIX, até era
engraçado andar em carruagens puxadas por locomotivas a vapor, com as
maquinarias facilitando a vida das pessoas, tanto nas deslocações a grandes
distâncias como nos modos de produção de bens. Mas agora estamos em plena
industrialização da própria humanidade, em que as pessoas são vistas como parte
funcional do grande esquema industrial de produção e consumo, com vista à
obtenção máxima de lucros para as grandes corporativas e seus
accionistas/proprietários. Somos todos peças da grande engrenagem
produtiva/consumista. Para trás ficou o propósito de evolução do indivíduo
guindando-se a planos mais elevados de consciência. Perante a premência da
progressão do sistema civilizacional/económico o indivíduo - o ser humano - foi
relegado para o plano de mera ferramenta cuja existência apenas é validada desde
que integrada nos planos do monstro corporativo.
Lembra-me o caso da vil postura do todo
poderoso presidente da Nestlé que afirma ser a água algo demasiado precioso
para estar disponível como um bem de direito universal, pelo que deveria ser
privatizada toda a água potável do planeta (claro que ele iria reclamar a
patente para a sua omnipotente multi-nacional), assim cada um teria que pagar
pelo seu usufruto. Isso sim, eu chamo de blasfémia. Isso sim, eu chamo de
encarnação do mal a quem advoga e tenta concretizar uma monstruosidade dessas.
Se a clássica escravatura foi abolida por decretos (embora não completamente na
prática), agora cria-se uma nova escravatura em que o indivíduo tem que se
sujeitar a todos os ditames predatórios dos grandes mandantes do empresariado e
da economia.
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
O LADRÃO DAS LÂMPADAS
Pode parecer caricato até, mas
de facto leva a crer que estamos perante um caso de furto especializado. Ele
vem de madrugada, salta os muros, driblando os cacos e farpas aguçadas que
tentam ser uma barreira ameaçadora, e uma a uma vai recolhendo dos casquilhos
todas as lâmpadas das garagens dos prédios da rua. No bairro já se tornou
famoso pela sua especialização, pois ao que consta não surripia mais nenhum
tipo de objectos, tão pouco tenta forçar os carros estacionados nas garagens. O
seu modus operandi já está tão rotinado que nem chega a verificar se alguns
portões estão mesmo trancados, ou se abririam tranquilamente sem forçar, pelo
que ele continua a saltar muros, fintando cães de guarda em alguns dos prédios,
com a mesma agilidade de quem guarda muito treino nos gestos e nos membros.
O que ele faz com as lâmpadas
surripiadas diligentemente, não sei. Certamente as venderá, pois lâmpadas
fluorescentes de baixo consumo são caras – pelo que os vizinhos do prédio ao
lado, já trataram de substituir todas pelas velhas lâmpadas incandescentes. O
que ele fará com o dinheiro da venda, não sei: pode ser para comprar droga, ou
para comprar remédios para a avó que está esclerosada (nem sei se a tem). Mas,
depois de constatar a sua acção ardilosa e alguns dos seus contornos
pitorescos, acabei por dedicar alguma simpatia ao ladrãozinho de bairro.
Afinal, embora eu tivesse receado em interpelá-lo, quando testemunhei a sua
faina em directo, pelos relatos posteriores acabei por criar um perfil mais humano
e justo, ao invés da rejeição rancorosa do primeiro impulso: ele fez-me lembrar
os românticos ladrões de Genet, no seu jeito contido e não desmedido. Num mundo
onde a roubalheira domina os mais altos cargos de influência e onde o crime violento
aniquila e condena a vida de tanta gente impotente e vulnerável, um pequeno
ladrão de lâmpadas torna-se quase uma figura aceitável.
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