domingo, 3 de junho de 2012

CARTONEIRO


Carros enfileirados ao longo da rua. Jazendo ao sol implacável do meio-dia. Abrasador, abatia-se sobre tudo e empurrava calor para as sombras, que pediam uma trégua na brisa suave.

Numa esquina do cruzamento ele protegia-se sob uma árvore. Sentado no lancil do passeio tagarelava com um amigo, que ocasionalmente passara e se demorava na companhia prazenteira. Conversa de cafuçu, com muito espalhafato de aparato cénico gestual, gírias codificadas e temáticas abstrusas com sentidos duvidosos e destituídas de construtividade humana.

O cartão pardo, como a pele dele, ia clareando com o sol, mas ele ia ficando mais moreno. Os músculos reluzindo, como desafiando o flagelador diurno. Jactante. Petulante. Mas sem deixar de assumir uma humildade submissa, na simpatia com que recebia as parcas moedas de gorjeta, razão pela qual ali estava.

Corpo moreno, musculoso, tisnado do sol, escapava das vestes rudimentares e humildes. Cabelo em crista e sarapintado de madeixas artificiais, escondido sob o boné paramental. Rosto marcado pela dureza de viver nas ruas e morar numa favela apinhada de criaturas semelhantes a humanos. Os chinelos de borracha livravam os pés do asfalto ardente.

Na sombra ele esperava mais outro cliente e outro e outro. Carro estacionado era sinal de vidro pára-brisas coberto com placa de cartão, recuperado de velhas caixas desmanteladas. Reciclagem? Quem disse que nada se perde? Foi mesmo Lavoisier! Visão de negócio? Tudo serve para ganhar algum dinheiro. Uma ajuda para o orçamento familiar.


5 comentários:

Serginho Tavares disse...

De um jeito ou de outro, vão ganhando o pão de cada dia...

Raphael Martins disse...

Esse é meu número. Gamei... rs

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

OMG! como eu queria isto hoje ... rs

Voltando meu querido e assim retomando a vida ... bjão

São disse...

Uma tristeza...

Te abraço com saudades, Irmão

Eliezer Coimbra Mattos disse...

Seus textos são confeccionados com uma delicadeza tão grande. Um apuro. Meus sinceros parabéns. Vai uma pitada de inveja e uma dose generosa de admiração. Abração!