terça-feira, 19 de junho de 2012

PÉS NO CAMINHO



Havia hesitado na escolha do caminho, mas acabei por regressar  pelo percurso habitual. Sempre tinha mais sombra para me proteger. A refeição fora agradável. No Sabores do Nordeste a comida é boa e o pessoal simpático. O bacalhau com puré estava óptimo, o bobó de camarão uma delícia e a costela grelhada um primor. Um pudim de ovos, com direito a uma ameixa de calda no topo, foi o remate perfeito.

E lá ia eu resguardado, sob a minha sombrinha, do sol estupidamente avassalador do início da tarde. Ia rente aos muros altos, que protegiam as casas e bens dos que assim se mantinham distantes da rua e do convívio urbano. Falsa ilusão de segurança em prejuízo da partilha e amizade.

Ao contornar uma esquina deparei com um corpo sentado no chão. Um jovem entrado nos vinte, andrajoso, mexia com um garfo uma mixórdia, dentro duma garrafa pet cortada ao meio, que percebi ser destinada ao seu almoço. Vi as pernas, estendidas pela calçada, saindo das bermudas sujas. Membros de linhas elegantes e músculos definidos, embora frouxos e flácidos pela fome e desleixo. Os pés sujos e disformes, por nunca terem conhecido um calçado que os aconchegasse, que ele se apressou a desviar do meu caminho. Como se fossem atrapalhar o meu desfilar, quando na verdade eu é que atrapalhava a sua refeição.

Ele olho-me, com ternura e simpatia. Olhos bem abertos, limpos, belos como o seu rosto, também belo no esplendor da juventude. Mas eu desviei os meus olhos, envergonhado. Envergonhado dos meu anéis de prata. Envergonhado das minhas sandálias de couro. Envergonhado dos meus auscultadores e ipod, por onde escutava música com que ritmava os meus passos. Envergonhado da minha parca abundância de quem tem onde comer e onde dormir. Envergonhado de não poder acolher e abrigar todos os injustiçados do mundo e da vida. Envergonhado de ter tido a chance de aproveitar mais oportunidades que ele e todos os outros como ele, que não conseguiram fazer melhor.

6 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

não há pq envergonhar-se ... c'est la vie mon chéri ...

Margot disse...

Venho aqui de vez em quando. Seu blog me chama a atenção rsr... Belo texto, retrato da vida em palavras, mas como disse o Paulo... c'est la vie. Infelizmente pouco podemos fazer, apesar de podermos...mesmo pouco.
Gracias pelo texto.

São disse...

O irónico de tudo isto é a indiferença de uns e a acomodação de outros e, ainda, a falta de decoro de quem podia evitar a situação , mas não evita!!

Abraço apertado, Irmão, cuja vergonha partilho.

Raphael Martins disse...

Sábado entrevista com ManDrag no meu blog... \o/

Serginho Tavares disse...

nossa! meu coração ficou apertado agora... tantas pessoas nestas condições e a gente ainda reclama da vida!

beijos

Junnior disse...

Querido, compartilho com vc a mesma sensação. Tal cena me machuca e me marca a ponto de, trazer a imagem comigo pra casa. Há alguns anos, isso era mais sofrido. Hoje, tento passar a culpa aos políticos que deveriam perder o sono por causa disso e não eu. Porém, não resolve muito. A gente não se acostuma com essa situação.
Beijo.