segunda-feira, 26 de setembro de 2016

UM EM TRÊS


Um em cada três brasileiros responsabiliza as vítimas pelos estupros que sofreram. “Por não se vestirem decentemente”, “por serem provocadoras”, “por não se comportarem e darem ao respeito”,... Sintomático da mentalidade tacanha e machista que imprime a cultura social brasileira ainda em pleno século XXI. Não vamos escamotear tentando argumentar que isso é uma opinião de homens, pois a percentagem de mulheres que também assim pensa é do mesmo modo elevadíssima. É uma questão de educação; aquela que é transmitida pela família, logo pelas próprias mães também, que foram criadas numa cultura machista e, não só aceitam, como reverberam na sua descendência essa tradição perversa e anti-natura. Como país obcecadamente religioso, o povo não faz muito mais que repetir os padrões e conceitos que a religião sempre lhes impôs: sujeição da mulher, estigmatização da mulher, demonização da mulher,...

sábado, 24 de setembro de 2016

CAI, NÃO FICA NADA


Mandado de prisão para Guido Mantega.
“Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai não fica nada” são os versos que me ocorrem com todo este suceder de denúncias e acusações. Cai o Dirceu, cai a Dilma, cai o Lula, cai o Mantega e o PT estrebucha para não cair também. A nação atónita assiste ao desfile de revelações como a uma parada surreal de vis trapaceiros. A pandilha estava toda unida no estratagema. Um novelo sem fim e a cada nó desatado mais uma revoada deles caindo na rede. É chocante. Escandaloso. Mas parece que algum povo não se importa muito com isso, pois continua a louvar e santificar essa corja populista e criminosamente demagoga.  Ingenuidade não chega ao ponto de acreditar que governantes ávidos de poder e controladores não soubessem do que se passava ao seu redor sobre estratagemas dos quais eram beneficiários directos. Essa do “não sabia de nada”, “não encontrarão nada em meu nome” só ilude trouxas que gostam de passar por idiotas.

Cá por mim continuo com a canção do Ivan Lins: “Cai o rei de espadas, cai o rei de ouros, cai o rei de paus, cai não fica nada...”

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

DESUMANIZAR


Quando me dizem que a Bayer comprou a Monsanto por 66 mil milhões de USD eu sinto-me indignado com esta industrialização da humanidade. No princípio da revolução industrial, em pleno século XIX, até era engraçado andar em carruagens puxadas por locomotivas a vapor, com as maquinarias facilitando a vida das pessoas, tanto nas deslocações a grandes distâncias como nos modos de produção de bens. Mas agora estamos em plena industrialização da própria humanidade, em que as pessoas são vistas como parte funcional do grande esquema industrial de produção e consumo, com vista à obtenção máxima de lucros para as grandes corporativas e seus accionistas/proprietários. Somos todos peças da grande engrenagem produtiva/consumista. Para trás ficou o propósito de evolução do indivíduo guindando-se a planos mais elevados de consciência. Perante a premência da progressão do sistema civilizacional/económico o indivíduo - o ser humano - foi relegado para o plano de mera ferramenta cuja existência apenas é validada desde que integrada nos planos do monstro corporativo.

Lembra-me o caso da vil postura do todo poderoso presidente da Nestlé que afirma ser a água algo demasiado precioso para estar disponível como um bem de direito universal, pelo que deveria ser privatizada toda a água potável do planeta (claro que ele iria reclamar a patente para a sua omnipotente multi-nacional), assim cada um teria que pagar pelo seu usufruto. Isso sim, eu chamo de blasfémia. Isso sim, eu chamo de encarnação do mal a quem advoga e tenta concretizar uma monstruosidade dessas. Se a clássica escravatura foi abolida por decretos (embora não completamente na prática), agora cria-se uma nova escravatura em que o indivíduo tem que se sujeitar a todos os ditames predatórios dos grandes mandantes do empresariado e da economia.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

O LADRÃO DAS LÂMPADAS


Pode parecer caricato até, mas de facto leva a crer que estamos perante um caso de furto especializado. Ele vem de madrugada, salta os muros, driblando os cacos e farpas aguçadas que tentam ser uma barreira ameaçadora, e uma a uma vai recolhendo dos casquilhos todas as lâmpadas das garagens dos prédios da rua. No bairro já se tornou famoso pela sua especialização, pois ao que consta não surripia mais nenhum tipo de objectos, tão pouco tenta forçar os carros estacionados nas garagens. O seu modus operandi já está tão rotinado que nem chega a verificar se alguns portões estão mesmo trancados, ou se abririam tranquilamente sem forçar, pelo que ele continua a saltar muros, fintando cães de guarda em alguns dos prédios, com a mesma agilidade de quem guarda muito treino nos gestos e nos membros.
O que ele faz com as lâmpadas surripiadas diligentemente, não sei. Certamente as venderá, pois lâmpadas fluorescentes de baixo consumo são caras – pelo que os vizinhos do prédio ao lado, já trataram de substituir todas pelas velhas lâmpadas incandescentes. O que ele fará com o dinheiro da venda, não sei: pode ser para comprar droga, ou para comprar remédios para a avó que está esclerosada (nem sei se a tem). Mas, depois de constatar a sua acção ardilosa e alguns dos seus contornos pitorescos, acabei por dedicar alguma simpatia ao ladrãozinho de bairro. Afinal, embora eu tivesse receado em interpelá-lo, quando testemunhei a sua faina em directo, pelos relatos posteriores acabei por criar um perfil mais humano e justo, ao invés da rejeição rancorosa do primeiro impulso: ele fez-me lembrar os românticos ladrões de Genet, no seu jeito contido e não desmedido. Num mundo onde a roubalheira domina os mais altos cargos de influência e onde o crime violento aniquila e condena a vida de tanta gente impotente e vulnerável, um pequeno ladrão de lâmpadas torna-se quase uma figura aceitável.

domingo, 15 de novembro de 2015

AGIR OU NÃO AGIR


Há catástrofes, acidentes e solidariedades. Há mobilização popular em torno de vítimas e sobreviventes. Mas o que se passa com a situação dos recentes atentados terroristas em Paris vai além do simples episódio funesto de quem por ele foi directamente atingido e a solidariedade daqueles que se compadecem com o infortúnio alheio. O hediondo episódio de 13 de Novembro passado, é mais um lance duma estratégia vil de provocar um conflito global de proporções inéditas na vil histórica bélica da humanidade. O caso aqui não é tão somente o número de vítimas ou a localização geográfica do hediondo evento, mas a vontade deliberada de provocar e atiçar males e calamidades maiores.
Toda a estratégia de actuação desse grupo criminoso é a deliberada provocação dum conflito bélico em nome duma pseudo-guerra inter-civilizacional-religiosa. Mas religião é o que menos está em questão em toda esta infâmia. O mais hediondo em todo este processo demoníaco é a mesquinhez pura de infligir dor e sofrimento pelo simples prazer de provocar terror; puro e simples terror. 
Veja-se como todos os métodos e alvos usados e visados em seus actos, são propositadamente escolhidos para ofender e ferir o que de mais sagrado e elementar há na filosofia de harmonia, liberdade e respeito pela vida em que se alicerça a civilização actual. Princípios tão veementemente defendidos pelas grandes nações relevantes da actualidade, de Norte a Sul e de Leste a Oeste. Note-se: estádio onde decorria um jogo de futebol, uma sala de espectáculos onde decorria um show musical, restaurantes e bares a esmo, onde as populações desfrutavam do lazer após uma semana de trabalho, tudo referências da cultura e modo de vida comuns à nossa civilização contemporânea, estes no caso recente em Paris; mas também sítios históricos de referência global, que testemunham o evoluir da civilização humana; execuções sumárias por decapitação sanguinária; defenestração, desde o topo dos prédios mais altos, de homossexuais; tudo exibido ostensivamente em vídeos distribuídos por todos os meios de comunicação, para se propagarem e causarem o maior efeito de repulsa e horror; além de outros procedimentos quotidianos repugnantes como o aliciamento de jovens do sexo feminino que são depois sequestradas e forçadas à escravidão sexual) Revelam apenas o imundo desejo de provocar um incomensurável e gratuito conflito global, para depois ficar desfrutando do vil espectáculo do sangue e miséria avassalando tudo e todos.
É isso que leva todos a aderirem a gestos simbólicos (como troca de fotos nos avatares dos perfis e partilha de apelos solidários) nas redes sociais da internet. A rejeição dum clima de terror e da ameaça duma guerra estúpida e global. A questão não é a identificação com os franceses, nigerianos, filipinos ou paquistaneses, sejam quem forem... mas o reconhecimento duma ameaça explícita e contínua ao nosso modo de vida e princípios morais em que baseamos a harmonia do nosso existir e coexistir, pacífico e fraterno.


terça-feira, 6 de outubro de 2015

1957





A minha mãe sempre ansiara ter um filho varão, mas das duas gravidezes anteriores nasceram raparigas. Decepção! Mulher prática e pragmática, para ela era melhor prevenir do que remediar.

1957. O sexo do feto era um mistério envolto em expectativas até ao momento do parto. Não havia nenhuma dessas tecnologias que agora permitem observar o crescimento da nova vida que se forma no útero. Não gostando de se expor a riscos fora de controlo, ela optou pela melhor solução: aborto.

Eu?! Eu nem era ninguém ainda. Apenas um feto escondido, crescendo que nem um tumor. Não passava dum imprevisto muito duvidoso e que poderia tornar-se igualmente um futuro inconveniente. Portanto, cortar o mal pela raiz! 

quinta-feira, 20 de março de 2014

O MACAQUINHO DO CIRCO



Sou eu! O português, o gringo (como aqui chamam aos estrangeiros), o forasteiro. Exibido como uma curiosidade, por alguns com arrogante escárnio disfarçado, por outros como troféu chique invejado, e também como uma futilidade charmosa, para ser logo esquecido e ignorado... descartado. Num meio de gente insegura e receosa, qualquer anomalia fora do padrão rígido determinado pelos tabus, é motivo de desconfiança. Grande desconfiança.

Saudado e acolhido com uma afabilidade imediata (mas não espontânea), essa mesma se esvai na primeira oportunidade de ser confrontado com um passado histórico mal aprendido e, interpretado com rancores seculares, alimentados por uma ignorância ostensiva.

Não tenho nome. Como gringo não mereço. Sou designado pela minha proveniência: “o português”. É mais fácil, para manter distâncias. Para me manter fora da esfera de intimidades. Afinal estrangeiro é um corpo estranho, que deve ser mantido sob observação e escrutínio constante. Tudo que faça de correcto “é porque estou assimilando a influência do meio em que agora vivo”, enquanto tudo que faça de errado “é a prova de que carrego em mim tudo o que de desprezível o colonizador histórico é acusado”.

O macaquinho do circo, que tem que ser domado e amestrado. “Para viveres cá tens de aprender a ser como nós!” Ou seja, perder a minha identidade, a minha individualidade. É, e continuará assim.