quarta-feira, 30 de maio de 2012

7 COLUNAS

Praça Oswaldo Cruz, Recife

Sete colunas, que nada sustentam, no meio da praça ajardinada. Ao alto um céu azul, entre grossas nuvens de chuva dispersas. A tarde é quente e húmida. Desconfortável. Em bancos de jardim, arrumados com simetria ao redor, figuras torpes encenam gestos viciados dum quotidiano urbano estafado de mesmice. O casal que namora num, o andarilho deitado em sono profundo noutro, os colegas que se juntam, para um bate-papo no intervalo do trabalho, noutro mais além. Eu que observo tudo com o distanciamento de quem não pertence ali. Nem a parte nenhuma.

Pombos chegam e imediatamente começam a bicar na areia moldada por pegadas que levaram por rumos diversos a diferentes destinos. Transeuntes passam perto. Alguns nem dão pelas aves, seguindo absortos no emaranhado das suas vidas sem intento, decalcadas dos paradigmas de consumo duma civilização sem propósitos de glória. Vão cegos à verdade no entorno e invisíveis no seu decalque de tantos outros milhares, milhões que se assemelham e alastram num mundo adormecido no pesadelo: presente.

Um abismo abre-se, imenso, a meus pés. Um fosso sem fundo, dum negro inexpugnável. Do breu sobe um frio gélido, paralisante. Dói o pensamento e a alma congela. Elevam-se rumores de dor e mágoa. O mundo range de injustiça e sofrimento. Glórias passadas arrastam-se na praia duma nova esperança. Um novo desbravar florestas que escondam templos esquecidos. Mitos. Lendas. Uma salvação que tarda.



3 comentários:

Raphael Martins disse...

Absorto: palavra do dia. Translate, please... rs

Junnior disse...

Olá, queridão. Qual a origem e propósito dessas colunas, vc sabe? Elas te levaram pra bem longe, hein? Como os rumos diversos das pegadas dos transeuntes.
Bjaum.

Serginho Tavares disse...

Eu acho ótimo que estejas aproveitando bem este momento e vendo coisas cotidianas, rotineiras, que nos olhos de tanta gente passam despercebidas, mas você com um olhar tão poético nos dá esta beleza de texto!

Beijos
Amo te