quarta-feira, 23 de maio de 2012

BATA BRANCA




Esperei o fim da tarde e a trégua do flagelo solar. Estava farto de ficar em casa olhando o vazio imenso da tela do computador e das redes sociais. Saí e a noite iniciava-se calma e tranquilizadora. Com a música marcando o ritmo dos meus passos, lá segui de auscultadores nos ouvidos e apoiado na minha inseparável bengala.

Corpos reluzentes de músculo e esforço circulavam em corrida, pelo trajecto sinalizado ao redor da lagoa. O suor emprestava brilho às tezes morenas e viris daqueles que se expunham semi-nus (vestindo apenas calção, os praticantes mais esforçados e esbeltos) ao olhar deliciado e devorador,  dos que sabem apreciar a beleza do corpo masculino.

No parquinho infantil crianças gargalhavam nos engenhos de diversão, sob o olhar avisado dos pais e mães que se juntavam em pequenos grupos comentando as habituais banalidades de ocasião. Nos quiosques-bar convivas confraternizavam indiferentes à verborreia omnipresente dos infalíveis televisores. Idosos, de ambos os sexos, também improvisavam o seu treino de manutenção da longevidade saudável, caminhando em duos ou trios, envergando com orgulho as suas roupas desportivas e calçado apropriado. Toda a gente queria se sentir bem com a vida, tranquilo e animado.

Num recanto sossegado, mas de passagem obrigatória, bem visível e acessível para todos, estava uma mesa de esplanada, com duas cadeiras. Numa das cadeiras uma mulher jovem, envergando uma bata branca, dialogava animadamente com um grupo que se tinha reunido em volta. Sobre a mesa percebi instrumentos médicos de auscultação e medição de pressão arterial.

Sorri feliz por saber que há gente que se lembra de cuidar dos outros, mesmo no seu tempo de laser. Sem se importar de prolongar um pouco mais o seu dia de trabalho, mesmo que seja em regime voluntário e sem remuneração.

3 comentários:

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

Bela crônica de uma vida urbana! Que bom q ainda temos estes altruístas né?

Raphael Martins disse...

Coisa rara. E que bom que saiu pra pegar um ar fresco...

Serginho Tavares disse...

Ainda existem pessoas que lembram que Medicina é sacerdócio!