segunda-feira, 7 de maio de 2012

DOIS HOMENS



A mesma tarde. A mesma rua. O mesmo calor. A cidade repete-se na sua exaustão ad-infinitum.

Eu prossigo a minha caminhada calma. A contra-tempo dos restantes transeuntes que se apressam febrilmente. O objectivo é o mesmo para todos: continuar sobrevivendo. Mas já nem filosofo a respeito. Deixo que o mundo corra, enquanto eu continuo observando da janela do meu vagão.

Passo a passo, por vezes parando aqui e além, sempre olhando em redor. Cada rosto, cada corpo, cada ser conta uma história. Cada alma traz em si um mundo, um universo.

Por mim passam, em passo animado e solto, dois homens com a tez bronzeada de quem vive na rua. Vestem com a informalidade e mau gosto dos vendedores ambulantes, que pululam pelo centro caótico de muvuca* e alarido. Mas o seu ar descomprometido e fanfarrão indica logo que não o são. Embora humildes, as roupas são cuidadas e novas, assim como os corpos mostram o brilho de quem se cuida e quer marcar status. São robustos, mas esbeltos e a sua virilidade é cativante. Fico seduzido e atento. Divirto-me com o aflorar da libido disparando testosterona por todos os poros. E tenho a certeza que se alguém olha-se nos meus olhos com atenção, veria um brilho de lascívia os iluminando.

De repente param. Um deles tira uma câmara digital do bolso e, encobertos por um camião estacionado começam a fotografar a fachada e a passagem para as traseiras, duma sucursal bancária no outro lado da rua.

Resta ficar atento aos noticiários, nas próximas semanas, sobre a notícia de mais um assalto a um banco.


Nota: *muvuca = grupo de pessoas fazendo bagunça, desorganização, confusão.

5 comentários:

São disse...

Poderás ganhar a recompensa na policia, depois rrsss

Boa semana

Raphael Martins disse...

Querido, acho que muvuca todo mundo sabe o que significa. Mas "ad infinitum", não... tecla SAP, please. Hehehehehe

Serginho Tavares disse...

Sempre maravilhosa a forma como escreves...
E com relação a recompensa que nossa querida São se refere, num país como o Brasil, ela nunca chegaria.

Beijos
Amo te

Hürrem disse...

Concordo com o Serginho, maravilhosa a forma como descreves de forma poética as simples cenas da vida! Abraço fraterno

Paulo Roberto Figueiredo Braccini . Bratz disse...

fantástico ... gostei muito da sensualidade das letras ... #diliça mesmo ...