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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ESCORPIÃO: O LACRAU

Todos nós temos histórias da nossa vida para contar. Essas histórias impõem-se ao relato porque percebemos, mesmo inconscientemente, que elas guardam em si algum ensinamento necessário à nossa evolução como seres humanos.

O Lacrau

O nome dele era Bento, mas todos o conheciam por Lacrau, devido ao seu temperamento malévolo e vingativo. Tal apelido ele ostentava com jactância, gabando-se largamente de lhe ser muito apropriado; ele gostava de fomentar e manter a imagem de criatura pérfida e odienta.

Embora o seu nível hierárquico fosse superior ao meu e eu trabalhasse em colaboração directa com ele, não era dele que eu deveria receber ordens, não lhe devendo mais que o respeito a um superior hierárquico. Ele pertencia aos quadros técnicos e eu aos administrativos. O meu superior hierárquico directo, embora o meu nível hierárquico não fosse muito elevado, era o director dos serviços administrativos, que respondia apenas perante o director geral da delegação.

Certa vez o Lacrau entrou no meu gabinete dando-me instruções de funcionamento que contrariavam as directrizes de trabalho que eu havia recebido dos meus superiores directos. Perante o dilema de ordens contraditórias eu apelei para a intervenção do meu chefe, Horácio Marques, que por sua vez telefonou ao Lacrau para esclarecer a situação.

Em resposta o Lacrau invadiu o meu gabinete exasperado e forçando-me a que eu o obedecesse:

- “Não me interessa as hierarquias desses senhores. Aqui quem manda sou eu!” –berrava desalmadamente. E ele era um simples encarregado, que deveria obediência a toda a hierarquia que lhe era superior, assim como às normas de funcionamento. Numa tentativa de encontrar uma solução conciliadora que satisfizesse todos os envolvidos o chefe dos serviços administrativos dirigiu-se ao meu gabinete para uma reunião dos três.

Foi um escândalo. Os berros do Lacrau ouviam-se por todo o edifício e até por quem estava lá fora. O Horácio estava atónito e, incapaz de alcançar algum acordo acabou saindo, com um desabafo de profundo desalento:

- “Faz como ele quiser, não há como conciliar com semelhante criatura... Nunca vi ninguém destilar tanto ódio!”

domingo, 19 de setembro de 2010

PASSANDO O TESTEMUNHO

Mãe e filho aproximaram-se do carro. Ela uma matrona já e ele um rapazinho duns 12 anos, franzino e alto. Conversavam descontraidamente, sorrindo com bonomia.

Ao chegarem junto da viatura a mãe dirigiu-se para a porta de trás e o garoto para a da frente, que dá acesso ao lugar ao lado do condutor, o pai. Este ao chegar destrancou as portas e todos assumiram os seus postos; o pai ao volante, ladeado pelo filho (macho) e a mãe (a fêmea) no lugar de trás.

Nos tempos da minha infância, tempos machistas e chauvinistas, o lugar da mãe, no veículo da família, era ao lado do pai; tivessem os filhos a idade que tivessem. Nunca passaria pela cabeça de uma família tradicional que a mãe cedesse a sua posição de matriarca ao primogénito (ou a qualquer um dos varões) pelo simples facto de este ser um macho dominante. A hierarquia familiar era indissolúvel no seu modo de estabelecer posições e responsabilidades. Eram tempos hoje criticados como arcaicos e bacocos.

Mas enfim, agora vivem-se outros tempos de emancipação feminina (impensáveis nos meus tempos de chauvinismo machista em que fui educado) e as mulheres são livres de afirmar a sua posição. Só que não entendo esta moda de as mulheres passarem o testemunho de machismo dominante aos seus rebentos. Quem espera por mudanças, quando os que deveriam educar nessas mudanças são quem dá os piores exemplos de tradicionalismo obsoleto?

Que respeito espera esta mãe do filho, quando lhe mostra a ele que ela mesma é-lhe inferior, ao ceder-lhe o lugar à cabeça da família que é dela por direito?

E este exemplo não é isolado, não! É o mais comum em todas as famílias modernas. Modernas?!

Enfim, é o mundo que temos!