O mundo contemporâneo chegou de enxurrada numa
grande nuvem de vapor. A revolução industrial. Uma catadupa de descobertas e
avanços tecnológicos passaram a fazer parte do nosso quotidiano e agora também
a electrónica e a informática são banais na nossa rotina diária em todas as
nossas actividades. A ciência evoluiu admiravelmente. E a humanidade? Mais de
380 milhões de crianças vivem abaixo do nível de pobreza.
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quarta-feira, 5 de outubro de 2016
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
O LADRÃO DAS LÂMPADAS
Pode parecer caricato até, mas
de facto leva a crer que estamos perante um caso de furto especializado. Ele
vem de madrugada, salta os muros, driblando os cacos e farpas aguçadas que
tentam ser uma barreira ameaçadora, e uma a uma vai recolhendo dos casquilhos
todas as lâmpadas das garagens dos prédios da rua. No bairro já se tornou
famoso pela sua especialização, pois ao que consta não surripia mais nenhum
tipo de objectos, tão pouco tenta forçar os carros estacionados nas garagens. O
seu modus operandi já está tão rotinado que nem chega a verificar se alguns
portões estão mesmo trancados, ou se abririam tranquilamente sem forçar, pelo
que ele continua a saltar muros, fintando cães de guarda em alguns dos prédios,
com a mesma agilidade de quem guarda muito treino nos gestos e nos membros.
O que ele faz com as lâmpadas
surripiadas diligentemente, não sei. Certamente as venderá, pois lâmpadas
fluorescentes de baixo consumo são caras – pelo que os vizinhos do prédio ao
lado, já trataram de substituir todas pelas velhas lâmpadas incandescentes. O
que ele fará com o dinheiro da venda, não sei: pode ser para comprar droga, ou
para comprar remédios para a avó que está esclerosada (nem sei se a tem). Mas,
depois de constatar a sua acção ardilosa e alguns dos seus contornos
pitorescos, acabei por dedicar alguma simpatia ao ladrãozinho de bairro.
Afinal, embora eu tivesse receado em interpelá-lo, quando testemunhei a sua
faina em directo, pelos relatos posteriores acabei por criar um perfil mais humano
e justo, ao invés da rejeição rancorosa do primeiro impulso: ele fez-me lembrar
os românticos ladrões de Genet, no seu jeito contido e não desmedido. Num mundo
onde a roubalheira domina os mais altos cargos de influência e onde o crime violento
aniquila e condena a vida de tanta gente impotente e vulnerável, um pequeno
ladrão de lâmpadas torna-se quase uma figura aceitável.
domingo, 7 de abril de 2013
DIA DORMENTE (RAPAZES E CAVALOS)
Ele sentou-se no selim e deu
arranque no motor. Engatou a primeira e a moto disparou rua afora.
Vestia uma roupa vermelha e
azul, as cores da empresa de distribuição de bilhas de gás doméstico. A sua tez
era negra. Bem negra. Jovem, ainda não completara vinte anos. Semblante
cerrado, mas sereno.
Deixou atrás de si um enlevo de
juventude e sensualidade, como se o dia se justificasse pelos pequenos momentos
de fugaz beleza que nos é dado vislumbrar. Nos interstícios das pregas da
rotina. E com o perder de vista entre muros e paredes, ficou o vazio, o
silêncio da modorra estéril da existência num bairro de periferia.
O dia estava mole. Dormente.
Alongando-se na habitual pasmaceira contagiante. Tudo mergulhava numa quietude
que não era, pois o rumor abafado da cidade se afirmava omnipresente. Pesado.
Contínuo.
...
Da quietude irrompeu o tropel de
cascos galopando na rua de terra batida. A garotada adorava atiçar os cavalos e
vir à desfilada pela rua fora, aproveitando a pacatez do bairro. Passavam em
revoada, entre risos e gritos. Muitos gritos.
O olhar fogoso e desvairado das
pilecas aterrorizadas, denunciava como eram muito mal tratadas. Ficava evidente
no aspecto muito descurado; magros, feridos, pêlo baço e sujo. Dava dó ver,
como depois de tão maltratados, os animais continuavam obedecendo submissamente
aos caprichos da moçada em desatino.
Desde bem pequenos os moleques
se acostumavam a deambular trazendo na mão um raminho verde desfolhado, fino e
flexível, como se duma chibata se tratasse, para castigarem os animais.
Vergastavam o ar, fazendo sibilar o ar com evidente gáudio extasiado, de quem
acha que se faz homem. Para essa gente rude, homem é sinonimo de brutalidade.
Homem é ser macho e macho é ser bruto.
Mas para a molecada tudo era
uma animação desbragada, quase histérica. A algazarra ia e vinha. Rua abaixo,
rua acima.
...
Depois os rapazes foram embora. Foram
com as suas famílias. Mudaram de bairro. E com eles foram os cavalos, a
gritaria e as galopadas. Agora restam os rapazes das motos e bicicletas
entregando bilhas de gás e garrafões de água. E o Júnior...
segunda-feira, 12 de março de 2012
ANTES





Todos nós vemos nos órgãos de informação imagens de como é a vida no Irão dos ayatollahs, o Irão de hoje. Mas muitos não sabem, outros esqueceram, que o Irão já conheceu dias de mais liberdade de expressão pessoal e comportamentos. As imagens acima são fotos do quotidiano no Irão do início dos anos 1970s, antes da revolução que impôs o regime islâmico.
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