Mostrar mensagens com a etiqueta trabalho. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta trabalho. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de outubro de 2016

GANHARÁS O PÃO


O peso da religião ainda é imenso nas nossas sociedades modernas. Até porque convém para o sistema económico que ela tanto apoia com o seu “ganharás o pão com o suor do rosto”. Através desse ditame imperioso o cristianismo sempre justificou todo o tipo de abusos predatórios e esclavagistas.
Não somos máquinas – ao invés do delírio romântico apregoado na febre da revolução industrial -  somos até providos de alma. Esse ideário de propósitos esclavagistas assenta maravilhosamente aos interesses inescrupulosos da dominante classe empresarial, ilibando de culpa a imposição dum modo de existência que não nos provê verdadeiro bem-estar ou felicidade. Se alguns de nós conseguem uma abastança material que lhes proporcione conforto, mesmo esses logo percebem que só isso não basta. Uma alma sã não se compraz numa bem-aventurança  moldada na amargura e sofrimento, sejam próprios ou alheios.

Agostinho da Silva afirmava ser anti-natura a condição de agente de produção do ser humano. Não nascemos para trabalhar mas sim para criar e para isso necessitamos de nos dedicar à ociosidade. Desse modo ele profetizava a sociedade do ócio, como o destino da humanidade,  vendo nos avanços tecnológicos e na robótica a possibilidade de concretização desse ideal. O Homo Divinus como entidade de vocação contemplativa e espiritual.

Imagem: "Angelus", Jean-François Millet

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

TEMPOS MODERNOS

Certa vez li num periódico um comentário dum leitor anónimo que dizia: “ Os governos fazem campanhas afirmando que o tabaco mata, as drogas recreativas matam, que o álcool mata, mas ainda não vi nenhuma campanha afirmando que trabalhar que nem uma besta mata”. As premissas podem não ser as mais convenientes, mas não deixa a réplica de chamar a atenção para uma questão fundamental da existência humana no mundo urbano actual.

O sistema laboral da nossa civilização é desumano, tal como a ideologia que lhe deu forma e propósito. A forma é o esclavagismo assalariado e o propósito é a subjugação completa ao sistema capitalista que o criou: o enriquecimento incondicional para a manutenção do poder pelo poder.

Mas a expressão fulcral na afirmação do leitor anónimo é: “Trabalhar que nem uma besta mata!” Mata porque somos (cada um de nós) um todo complexo e respondendo dum modo orgânico a todos os estímulos a que somos sujeitos.

O sistema pendular de vida (casa/trabalho trabalho/casa) que temos não é natural. Mais ainda quando coreografado com o recurso a todos os incómodos duma existência urbana.

Morar a mais de três horas (no total de ida e regresso) do local de trabalho é um absurdo atentado à saudável sobrevivência de qualquer ser. Tempo esse gasto em transportes colectivos apinhados de gente angustiada e circulando com toda a dificuldade inerente a cidades povoadas muito além do conveniente.

O longo período de trabalho , que consome as melhores horas do dia, em desfavor de outras actividades fundamentais como o convívio familiar, social e o ócio direccionado ao desenvolvimento pessoal, é um brutal atentado ao desenvolvimento do indivíduo e uma condenação malévola do nosso propósito maior de vida: evoluir.

A sugestão condicionadora de que o propósito de vida está na aquisição de bens supérfluos e que para tal há necessidade de trabalhar desalmadamente para os adquirir (num ciclo perverso de produção/consumo com o único fito de satisfação dos ideais de ganância dos dominadores) é aviltante.

Manter trabalhadores ocupados num horário de trabalho extenso quando milhares de outros se encontram desempregados e com carências, tanto eles como as suas famílias, apenas para manter os absurdamente elevados níveis de lucro da classe empregadora e assim sustentar o seu poderio e domínio, é no mínimo perverso.

Trabalhar excessivamente e em más condições não é saudável (e o que não é saudável é pernicioso), pois origina toda uma série de mal-estares de origem orgânica e mental, que estão na origem de todos os distúrbios físicos e mentais que assolam a quase totalidade da população contemporânea.

Temos de deixar de ser máquinas ao serviço das classes dominantes, para passarmos a ser seres humanos.

Agostinho da Silva defendia que o futuro da humanidade estava na civilização do ócio. Entendam isso como quiserem.