segunda-feira, 2 de agosto de 2010

TEMPOS MODERNOS

Certa vez li num periódico um comentário dum leitor anónimo que dizia: “ Os governos fazem campanhas afirmando que o tabaco mata, as drogas recreativas matam, que o álcool mata, mas ainda não vi nenhuma campanha afirmando que trabalhar que nem uma besta mata”. As premissas podem não ser as mais convenientes, mas não deixa a réplica de chamar a atenção para uma questão fundamental da existência humana no mundo urbano actual.

O sistema laboral da nossa civilização é desumano, tal como a ideologia que lhe deu forma e propósito. A forma é o esclavagismo assalariado e o propósito é a subjugação completa ao sistema capitalista que o criou: o enriquecimento incondicional para a manutenção do poder pelo poder.

Mas a expressão fulcral na afirmação do leitor anónimo é: “Trabalhar que nem uma besta mata!” Mata porque somos (cada um de nós) um todo complexo e respondendo dum modo orgânico a todos os estímulos a que somos sujeitos.

O sistema pendular de vida (casa/trabalho trabalho/casa) que temos não é natural. Mais ainda quando coreografado com o recurso a todos os incómodos duma existência urbana.

Morar a mais de três horas (no total de ida e regresso) do local de trabalho é um absurdo atentado à saudável sobrevivência de qualquer ser. Tempo esse gasto em transportes colectivos apinhados de gente angustiada e circulando com toda a dificuldade inerente a cidades povoadas muito além do conveniente.

O longo período de trabalho , que consome as melhores horas do dia, em desfavor de outras actividades fundamentais como o convívio familiar, social e o ócio direccionado ao desenvolvimento pessoal, é um brutal atentado ao desenvolvimento do indivíduo e uma condenação malévola do nosso propósito maior de vida: evoluir.

A sugestão condicionadora de que o propósito de vida está na aquisição de bens supérfluos e que para tal há necessidade de trabalhar desalmadamente para os adquirir (num ciclo perverso de produção/consumo com o único fito de satisfação dos ideais de ganância dos dominadores) é aviltante.

Manter trabalhadores ocupados num horário de trabalho extenso quando milhares de outros se encontram desempregados e com carências, tanto eles como as suas famílias, apenas para manter os absurdamente elevados níveis de lucro da classe empregadora e assim sustentar o seu poderio e domínio, é no mínimo perverso.

Trabalhar excessivamente e em más condições não é saudável (e o que não é saudável é pernicioso), pois origina toda uma série de mal-estares de origem orgânica e mental, que estão na origem de todos os distúrbios físicos e mentais que assolam a quase totalidade da população contemporânea.

Temos de deixar de ser máquinas ao serviço das classes dominantes, para passarmos a ser seres humanos.

Agostinho da Silva defendia que o futuro da humanidade estava na civilização do ócio. Entendam isso como quiserem.

3 comentários:

Serginho Tavares disse...

Que texto soberbo meu amor!
Concordo completamente como o anónimo do periódico e com você, mas o Esado não quer nada além de máquinas hoje em dia.
Enfim, os tempos modernos são mesmo infelizes não é mesmo?

Beijos

Mari disse...

É,Mandrag. O futuro com uma sociedade mais justa pra mim parece tão distante e quase impossível.

Em momentos de crises, aqui na Turquia, vemos reportagens com a seguinte manchete:professores desempregados passaram a limpar o chão da escola, por causa do desemprego aceitam cargos mais baixos.

A idéia que se vende é de que nessa crise econômica quem tem trabalho é "sortudo". Mesmo que seja o pior trabalho existente.

E pra dizer a verdade, desde quando tem trabalho pra todo mundo? Há mt tempo que o desemprego assombra a classe popular. Não chamo sub-emprego de emprego, é escravidão.

Concordo com tudo que disse, isso não é natural. Esse stress mata. Nos mata aos poucos nos tirando saúde física e mental.

Tá tudo de cabeça pra baixo...

São disse...

Pois , só alertam para o que não lhes dá interesses diretos.

Meu bem, vai ao e-mail,sim?

Um enorme abraço.