terça-feira, 10 de agosto de 2010

DESCONFORTO

8.00h. Manhã ensolarada e promissora de mais um agradável dia, sem a contínua e maçadora chuva tropical. Mas... Oh, não! Lá vem ele de novo! O camião da distribuição de gás. Vem em marcha lenta, como sempre, para dar tempo a que alguém chame para comprar um bilha (botijão) de gás. Entretanto, do megafone instalado sobre a cabina do motorista e do ajudante, troa um forró rafeiro intervalado pela voz dum locutor berrando as vantagens do produto que ali se vende. Hum!... Serei o único que se incomoda com tal despropósito de poluição sonora? Parece que sim, pois ao que me foi dado constatar neste ano e meio que aqui vivo “poluição sonora” é coisa que não faz parte do vocabulário destas gentes.

E não é só o camião do gás...! Vem também um homenzinho numa bicicleta, pedalando em conveniente marcha lenta. No veículo, para infernizar mais ainda a pacatez duma vida de bairro residencial pois claro, foram previamente instaladas umas enormes caixas com altifalantes que vociferam em altos decibéis os tentadores preços do mercadinho na rua de trás. É por demais evidente que a engenhosa instalação sonora debita também o infame forró.

Julgam que ficamos por aqui?! Não! Ainda vem a pic-up de distribuição de garrafões (botijões; aqui é tudo botijão) de água de mesa. Obviamente que também se faz anunciar com o estrondoso e indesejado forró, tentando cativar as preferências de novos clientes e manter a fidelidade dos antigos, através da recordação da sua incómoda existência. E há o vendedor de fruta. E há o vendedor de bolachas, biscoitos e bolinhos. E há o vendedor de plásticos e demais tralha domestica. E há o vendedor de lençóis, atoalhados e demais panos para a casa. E há... E há... E há... Todos eles se anunciando invariavelmente com o forró de mau-gosto, em decibéis muito acima do permitido em qualquer país que preze pela qualidade de vida dos seus cidadãos.

Convém não esquecer os domingos, quando os vizinhos descem até à rua e frente à fachada do prédio, ficam conversando em roda, de cerveja na mão, ao lado do carro de portas abertas para deixar sair o som da aparelhagem sonora e que vocifera o invariável forró em altos berros. Julgarão eles que os demais vizinhos não terão aparelhagem sonora em casa para poderem ouvir música? Não sei. Mas sei que mesmo que eles tivessem o mesmo gosto musical que eu, eu preferiria ouvir a música que eu escolhesse no momento e nunca a que me seria imposta.

Enfim, apontamentos da vida dum estrangeiro em terras do Brasil. País que é um sucesso de desenvolvimento económico a nível mundial. Melhor seria que também fosse um sucesso na qualidade de vida dos seus cidadãos.

Como isso se alcança? Qualidade de vida? A resposta é bem simples: EDUCAÇÃO CÍVICA.

6 comentários:

Serginho Tavares disse...

Além de todo o barulho ainda temos que aguentar o tal forró!
Valha meu Deus!


beijos

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

é o que gera um grande conflito entre brasileiros e japoneses por aqui: a questão do barulho, do ruído.
Para brasileiro, o barulho é festa. qto mais barulho, riso e grito, melhor. Para os japoneses, o barulho é excessivo, tem hora para acontecer.

e assim segue-se em briga.
Vc tem uma noção do desagrado disto porque provém de outra realidade. E tem parâmetros para comparar o valor do silêncio.

Excelente. Bom dia meu amigo

São disse...

E o pior é que fazem exactamente o mesmo no estrangeiro. Mais concretamente, na casa defronte da minha.
Ai, que paciência!!
Beijinhos,

Clarice disse...

Imagine que eu me criei numa cidadezinha(bem inha, acredite!) e quando me mudei para a capital pensei que essa zoada de rua teria fim. Tá bom! Volta e meia aparecia um gritalhão em qualquer rua.
Quando saí do centro da cidade e vim para a praia, foi outra esperança. Mas, aqui é um meio de comunicação muito comum. Supermercado com ofertas da semana, caminhão de frutas e verduras, associação do bairro e por aí vamos. Pelo menos a musiquinha do caminhão de gás é uma sinfonia de Beethowen! dedilhada no piano.
Abraço.

Beth/Lilás disse...

ManDrag,
Interessante, hoje pela manhã deixei um comentário sobre este mesmo assunto em outro blog amigo.
Vou dizer o mesmo por aqui.

Talvez por ter morado em uma casa grande e quase no meio do mato por tanto tempo, por isso acostumei-me tanto, mas agora, no meio urbano, construções crescendo em volta e com filho por perto de novo e eu querendo escrever, irrito-me com a falta disso, fora que no Rio é meio difícil ouvir silêncio.

Gostaria imensamente de deixar-lhe uma poesia indígena que coloquei em meu blog faz tempo, vou deixar apenas um pedaço, mas se quiser conferir entre no link abaixo, ok.

..."Com vocês, brancos, é o contrário.

Vocês aprendem falando.
Dão prêmios às crianças que falam mais na escola.
Em suas festas, todos tratam de falar.
No trabalho estão sempre tendo reuniões
nas quais todos interrompem a todos,
e todos falam cinco, dez, cem vezes.
E chamam isso de “resolver um problema”.
Quando estão numa habitação e há silêncio,
ficam nervosos.
Precisam preencher o espaço com sons.
Então, falam compulsivamente,
mesmo antes de saber o que vão dizer.
Vocês gostam de discutir."

O link é este:

http://supremamaegaia.blogspot.com/2009/08/sabedoria-indigena.html

abraço carioca

Mari disse...

Eu, quando morava no Rio de Janeiro, num bairro residencial da zona norte, tb me incomodava mt...E olha que sou brasileira!

São os carros, o cantor desafinado do barzinho da esquina, o caminhão de gás, o carro que vende a "Pamonha, pamonha,pamonha!"

Aqui na Turquia, vivo num bairro residencial tb, de nível médio-baixo. Escutamos o gás com uma música bem curta. Escutamos o moço que vende batatas algumas vezes por semana, falando no microfone por uns 3 min e se vai...Tem mais respeito.

Queria mt que o povo brasileiro aprendesse que fazer barulho incomoda, polui e além disso, priva a nossa liberdade de ouvir, ler ou fazer qualquer coisa que temos direito de fazer em silêncio.

Boa sorte pra vc, ManDrag!