quarta-feira, 4 de agosto de 2010

MUNDO TELEVISÃO

“Depois de assistirmos às notícias sobre raptos, assassinatos, acidentes de viação, mortos palestinianos e israelitas, descobertas de centenas de vítimas taliban asfixiadas em contentores no Afeganistão, surge uma notícia que, como uma luz divina, redime todo o mal espalhado pela Terra: nasceu um bebé panda no Zoo de Pequim! O apresentador sorri largamente, pisca mesmo um olho cúmplice aos telespectadores. Depois das imagens de futebol, remata enfim, com um tom Sábio: «É a vida!»”

José Gil in “Portugal, Hoje. O medo de existir”

O excerto que transcrevo, do filósofo português José Gil, retrata uma realidade que por vezes, à força do hábito, nos passa quase despercebida (ou mesmo com indiferença), ainda que estejamos olhando directamente para ela: os conteúdos dos noticiários televisivos e o modo como a realidade do mundo chega até nós. A violência, a tragédia, a falibilidade da vida acabam por banalizar-se e quase tornar-se elementos de ficção novelesca. Afinal o maior atractivo das televisões para o público são as telenovelas...

A força do hábito de uma emoção sofrida por longo período acaba por entorpecer a capacidade de reacção aos estímulos que a provocariam. Assim uma sociedade pode tornar-se um universo de violência em que os seus cidadãos vivam num permanente clima de medo recalcado, como se isso fosse a coisa mais natural.

Não é! Nunca foi, nem nunca será! É necessário um esforço de alerta para nos mantermos acima de qualquer torpor que minimize a nossa capacidade humana de perceber a realidade em nosso redor e reagir emocionalmente.

Vivemos numa civilização que nos amalgama e uniformiza, numa tentativa de nos desumanizar. Isso é uma coisa ímpia de se fazer. Qualquer mínimo gesto nesse sentido o é. Urge que nos mantenhamos alerta. Mas para o estarmos temos de reconhecer a necessidade de o fazermos. E para tal é necessário educar, alertar os espíritos para o real sentido da vida, para o real sentido das coisas, para o real valor da condição humana.

3 comentários:

Serginho Tavares disse...

Hoje em dia tudo esta banal. As pessoas ainda sentem alguma coisa?
Do jeito que vai não precisaremos de robôs porque nós nos tornamos máquinas!

Beijos meu amor. Mais um lindo texto como só você pode fazer!

Mari disse...

Concordo com o Serginho, do jeito que vai a coisa, os robôs seremos nós.

Eu não gosto nada de perceber, num restaurante simples por exemplo, onde tem uma TV colocada no alto, com notícias horríveis, e o pessoal lá continuando a comer. Eu perco logo o apetite.Não adianta nem virar as costas para tela, pois a gente pode ouvir o que se fala.

Essa inércia toda diante te tanta catástrofe não pode ser aceita assim naturalmente!

É angustiante ver muita gente se preocupando com coisas tão supérfluas, sem ao menos perceber que pensando dessa maneira estão ajudando a gerir ainda mais sujeira...

Sobre os filmes de fantasia e ficção, tb os adoro. Estou tentando acompanhar as antigas séries de Star Trek ( Jornada nas Estrelas, assim traduzida no Brasil).

Prefiro os atores daquela época. Me pareciam mais apaixonados, mesmo com menos efeitos especiais.

Até uma próxima,amigo!

São disse...

Estamos todos anestesiadaos por doses maciças de violência.

A televisão será o nosso carcereiro e não daremos por isso sequer.Aliás, já é ...a pretexto da segurança.

Meu irmão-de-coração, um abraço de saudades grandes,