sexta-feira, 19 de outubro de 2012

A DANÇA DE PEDRA DO CAMALEÃO



Ricardo Pinto escreveu uma trilogia, que alguns tentam enquadrar no género fantástico, outros no de ficção-científica, mas que para o autor não se inscreve em nenhuma categoria específica. “A Dança de Pedra do Camaleão” é uma alegoria crua e desabrida do mundo em que vivemos, com todas as suas decadentes grandezas e agonizantes misérias. É também a história da auto-descoberta dum jovem e do seu papel num mundo, que ele rejeita ao perceber o seu lugar nele.

Com todos os ingredientes dum grande épico, “A Dança de Pedra do Camaleão” é uma epopeia arrebatadora que nos transporta, através duma escrita requintada e envolvente, por um mundo transbordante de emoções.

Volume I: “Os Escolhidos”; volume II: “Os Guardiães dos Mortos”; volume III: “O Terceiro Deus”.

Estes livros eu os levarei sempre comigo. Minha leitura favorita de sempre e em qualquer momento.

Pena que não haja nenhuma edição no mercado brasileiro.



Ricardo Pinto

domingo, 7 de outubro de 2012

LIVROS



Recolhi este curto inquérito do blog do Bratz (inquérito que ele respondeu com soberba mestria e apresentando verdadeiros tesouros da nossa cultura ocidental)(*). Agradado com a temática proponho-me aqui responder ao meu modo e, como não sou dessas correntes, deixo livre a oportunidade a quem queira candidatar-se à revelação das suas opiniões literárias.

Como disse acima, irei responder ao meu modo, o que significa que não me restringirei às regras do meme.

1 – Existe um livro que eu leria muitas vezes sem me cansar? Qual?
Há sempre um livro que gostamos de reler. No meu caso existem vários que gosto de voltar a visitar. Neste momento o que me ocorre é “Memorias de Adriano” de Marguerite Yourcenar. Uma biografia ficcionada do Imperador Adriano, narrado na primeira pessoa. Um exemplar testemunho na escrita erudita, mas agradável, da autora de muitas obras de referencia. Outro livro que durante muitos anos revisitei, em busca de reflexões e porque não em busca dum conselho paternal, foi “De Profundis – Epistula in Cárcere” de Óscar Wilde. Volume que durante anos conservei na minha cabeceira, até ao dia em que o ofereci à minha sobrinha, num gesto simbólico, como passagem de testemunho. Companheiro sempre desejável é “Tao, O Caminho do Meio” de Lao-Tze, por razões tão óbvias que nem as referirei.

2 – Se eu pudesse escolher apenas um livro para o resto da minha vida, qual escolheria?!
Ah! Mas isso é maldade... Apenas um?! Ora vejamos... Não irei repetir os da resposta anterior, embora os incluísse na lista sem hesitação, tal como o faria com o livro da resposta seguinte. Entre “Maurice” de E.M. Forster, “Memórias de uma Máscara” de Yukio Mishima,  escolho “101 Histórias Zen”.
Mas o livro que levaria para uma ilha deserta seria “O Livro em Branco", junto com um lápis para ir rabiscando.

3 – Indique um livro para que outros possam ler.
Pensando em todos, tanto nos aficionados pelos prazeres da leitura como nos que nem tanto assim, optei por indicar um livro de contos, pois são profundos, acessíveis na narrativa e curtos para não enfadar os mais ansiosos: “Contos Completos de Óscar Wilde”.

Comum aos três itens é a trilogia “A Dança de Pedra do Camaleão” de Ricardo Pinto, que recomendo vivamente. É uma assombrosa metáfora do nosso mundo e dos nossos governantes. Para onde quer que eu for esses três livros irão sempre comigo.

(*) Mau grado o esforço ultra-chauvinista de muitos, a cultura americana não deixa de ser uma sub-cultura derivada do grande veio cultural ocidental-europeu. Tanto na sua vertente religiosa cristã, quanto na sua vertente filosófica laica.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

O AIO



Quero hoje contar um episódio da nobre fundação de Portugal. Uma nação arquitectada por homens e mulheres valorosos e dignos.

Aio (ou aia) era alguém nomeado para ficar encarregue da educação de crianças ilustres e nobres. Normalmente o aio, ou a aia, ficavam para sempre ao serviço do seu senhor, ou senhora, no que hoje poderíamos chamar de serviço de assessoria.

D. Afonso Henriques, ou D. Afonso I de Portugal, foi o fundador da Nação Portuguesa, ao resgatar a autonomia do Condado Portucalense da suserania de D. Afonso VII de Leão e Castela.

Egas Moniz era aio de D. Afonso Henriques.

Aquando das disputas entre os primos(*) beligerantes, Afonso de Leão (rei) cerca Guimarães, onde Afonso de Portucale (conde) havia sediado o seu exército separatista. Egas Moniz com o seu estatuto de preceptor do jovem conde e o respeito devido que a idade lhe conferia, arroga-se como negociador da paz e promete ao rei a submissão de D. Afonso Henriques.

Mas o conde, apoiado por uma larga elite Portucalense que apenas visa a autonomia do condado e sua completa independência, logo pega de novo em armas contra o rei, rompendo o acordo.

Egas Moniz apresenta-se então perante D. Afonso VII com toda a sua família, em vestes de condenados, pondo as suas vidas e honra ao dispor do rei. Este, reconhecendo a nobreza de carácter do aio e a lisura das suas intenções, perdoou-o e ainda lhe ofereceu favores. De volta à corte portucalense o aio também recebeu grandes favores de D. Afonso Henriques, pela sua fidelidade e honradez.

Mas isto era na barbárie dos tempos feudais, da chamada Idade Média. Agora os tempos são outros. Agora vivemos tempos mais civilizados e, tanto tecnologicamente como cientificamente, superiores. Tempos em que a honra foi mandada às ortigas.  Falar em honra nos salões e corredores do poder hoje é uma anedota.

(*)Nota: D. Afonso Henriques e D. Afonso VII eram primos directos. As mães de ambos eram meias-irmãs, filhas de Afonso VI de Leão e Castela.

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

CORES




Sobre o verde da relva aparada, um lençol branco se agitava, revolvia, tapava e destapava dois jovens, apaixonados. Um vestia uma camisa azul e outro uma camisa rosada.

- São dois rapazes. – afirmou Tau.
- Não são, não! É um rapaz e uma rapariga. – contestou Ant.
- Não são, não! São dois rapazes como ele disse! – apoiou Fer.
- Não pode ser! É um rapaz e uma rapariga! – insistiu Ant.
- Eu para mim, parecem-me dois rapazes – reafirmou tranquilamente Tau, sem querer parecer indelicado.

Mas, continuámos os três em direcção ao transporte que nos levaria ao destino seguinte, do nosso roteiro turístico.

O que causava tanto embaraço na definição do sexo dos namorados, nem era a dificuldade de lhes distinguir as feições devido à distancia a que estavam de nós, mas ao facto de tal cena se passar no meio de um amplo relvado (gramado, br) em plena Praça da República; um dos pontos nobres e turísticos por excelência, da cidade de Recife. Isto num pais, o Brasil, onde os crimes de homofobia são uma prática quotidiana, com estatísticas e números de ocorrências assustadores, senão mesmo apavorantes. Em 2011, segundo dados do governo central, foram registados 6800 casos de violações dos direitos de integridade física e 278 mortes por homofobia. Só nos primeiros 6 meses de 2012 foram assassinados 165 homossexuais (de ambos os sexos). Muitos dos casos de agressão e homicídio são perpetrados por membros da própria família da vítima.

Finda a agradável tarde de passeio pela cidade o nosso transporte voltou a circular pela mesma praça e lá estavam os dois jovens dobrando as cobertas onde haviam repousado e arrumando a trouxa de pic-nic. Então, em pé e se movimentando, deu bem para ver claramente que se tratava dum casal de rapazes. Os seus olhos continuavam se cruzando com carinhosa cumplicidade e seus lábios tocavam-se em leves beijos.

O espanto e a curiosidade foi geral, entre o nosso grande grupo de veraneantes. Entre nós os três, o acordo foi firmado com tranquilidade e até alguma satisfação, pela digna e tranquila coragem com que os jovens em causa assumiam o seu amor.


Nota: Pernambuco é um dos estados brasileiros onde a união estável entre pessoas do mesmo sexo é reconhecida e registada oficialmente. Assim também Recife é um município que promove campanhas anti-homofobia, tentando se mostrar como uma cidade gay-friendly. Contudo uma  coisa é a lei e a vontade política da nação, outra é a mentalidade popular e a livre propaganda criminosa de facções religiosas odientas e fanáticas.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

NEFERTITI



Éramos um grupo grande e bem heterogéneo, ocupando grande parte da plateia esgotada do teatro. A peça era massivamente divulgada nos órgãos de comunicação, como um expoente da nova dramaturgia inter-disciplinar, por recorrer a vários suportes multimédia para maior abrangência do discurso cénico. Motivo de empolgação geral pela curiosidade e vaidade de querer estar presente num momento único e acessível a poucos.

Chegada a hora, todos nos seus lugares, ansiosos, expectantes. As luzes do grande salão apagam e com nervosismo tudo se aquieta. Alguém sai da cortina de palco e apresenta um breve discurso de desculpas: uma das actrizes principais adoeceu subitamente, não havendo tempo de se proceder à sua substituição, reunido o elenco e a produção, todos concordaram em seguir o espectáculo mesmo sem essa actriz/personagem.

??? O quê? Como assim? Não faz falta? Bem, quem sou eu para questionar os juízos das doutas cabeças intelectuais que ditam a modernidade e os seus destinos culturais!

E deu-se início ao espectáculo. Mais expectativa! Mais ansiedade! Mais curiosidade em ver como tamanha raridade multidisciplinar, com recurso às mais modernas tecnologias de palco se revelaria em deslumbramento! Mas o deslumbramento foi pela sensaboria imensa, dum tédio atroz, que raiava quase a fúria de ter gasto tempo e dinheiro para assistir a tamanha patacoada!

Impacientemente esperei o desejado intervalo, tentando não exteriorizar a irrequietude que me consumia a alma furibunda com tamanho dislate dramatúrgico. E ele, o abençoado intervalo, finalmente chegou. Toda a gente fugiu para o foyer (vestíbulo). O nosso grupo tentava reunir-se, buscando um parecer nos olhares confusos uns dos outros. Ensaiavam-se receosos elogios, baseados numa afirmada ignorância de altos quesitos cénicos. Ninguém percebera nada do que se passara em palco, nem encontraram motivo algum para se agradarem do que tinham acabado de assistir, mas faltava a coragem de contrariar os doutos louvores que a critica especializada derramava pelos jornais e magazines. Seria um revelar a sua ignorância e falta de preparo intelectual.

Ao me acercar do grupo central, em que se encontrava a co-organizadora daquelas surtidas culturais, ela me fisgou para junto de si e me disparou à queima-roupa: “Tu que és o artista e intelectual do grupo diz qual o teu parecer. O que achaste?” Eu não iria recusar a oportunidade de dizer, alto e bom som, aquilo que sabia todos estarem a pensar.

- «É uma grande merda! Uma chatice de todo tamanho! Só não me vou embora já porque temos de esperar que o transporte nos venha recolher à hora marcada. E acredito que todos aqui estão pensando o mesmo que eu. Na verdade eles têm razão, a pobre que adoeceu, não faz mesmo falta nenhuma, pois nem se notou a sua ausência na imensa monotonia que é o texto e a encenação.» – Despejei e quase fui aplaudido.

Um suspiro geral descarregou a tensão que antes se acumulava nos semblantes e toda gente desatou a desfiar uma verborreia agastada com tamanha xaropada.

A segunda parte foi mais tranquila e quase divertida, com os entre-olhares do nosso grupo que se divertia numa troça velada à prosápia fastidiosa e embalsamada dos emplastros em cena.

Acho essas modas super-ultra-hiper-elitisticamente-intelectuais, ou pretensamente intelectuais, o cúmulo da jactância arrogante duns badamecos que perderam a mais completa afinidade com o mundo real. Arte tem de ser para todos e não para um pequeno núcleo de mentes herméticas, em códigos inúteis e sem sentido.


Teatro da Trindade, Lisboa

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

MEU AMOR

Antigo Mercado Modelo do Derby, Recife


Entrei no mercado e logo fui envolvido pela mistura de aromas, cores e burburinho. Gente movendo-se para cá e para lá, atarefada.

A manhã estava quente. Lá fora o sol abatia-se ferozmente sobre tudo que se expusesse na rua apinhada de gente, veículos motorizados de toda espécie e barracas de venda oferecendo toda a variedade de produtos. O cheiro de fruta podre, acumulada na berma da rua, misturado ao de urina, vindo dos becos transversais, impregnava o ar, sufocante de quente, com um odor nojento e insalubre. Mas a populaça apressava-se indiferente; comprando, regateando e apressando-se indiferentemente.

Aliviado por conseguir fugir do inferno da rua, alegrei-me por ver que na primeira banca havia o que procurava. Dirigi-me com simpatia ao vendedor do outro lado do balcão, um jovem aparentando uns 30 anos com bom aspecto.

- Bom dia, meu querido! – saudou-me ele com simpatia, atirando-me um largo e animado sorriso. Eu vacilei, embaraçado com a intimidade, mas sem perder a cordialidade.

Eu indaguei sobre a mercadoria que pretendia e os preços. Ele sempre me respondia com alegria e a mesma intimidade cúmplice de “meu amor”, “meu lindo”,  “meu querido”. Os seus olhos brilhavam de simpatia e o meu amor-próprio coruscava, lustrado pelos seus epítetos sedutores. Claro que eu não iria deixar de comprar o que quer que ele me quisesse vender.

Depressa o espanto se diluiu perante a realidade. Afinal eu estava noutro continente, entre as gentes dum outro povo, com hábitos e posturas bem diferentes daquelas com que toda a vida convivera. Logo percebi que seria muito mais fácil viver sendo apaparicado, mesmo que verbalmente, por quem se cruzasse no meu caminho.

E foi com um tímido “Tchau, meu querido!” que arrisquei meu primeiro envolvimento com esse à vontade no trato, que tão bem me sabe ao ego e amor-próprio. 

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

NÃO É



Quando vi esta foto lembrei do bairro de Boa Viagem, no Recife. Mas nem as montanhas ao fundo são Olinda, nem a avenida de Boa Viagem é tão sinuosa, muito menos há embarcações nas praia de Boa Viagem. Apenas os arranha-céus lembram alguma semelhança.

Recife é uma cidade que nasceu dum porto marítimo mas vive de costas para o mar. Ela não teve origem no estabelecimento de nenhum pequeno núcleo humano pesqueiro, que depois se tenha desenvolvido. A cidade formou-se a partir do porto que a vizinha Olinda precisava para escoar o açúcar produzido nas plantações do interior, assim como da necessidade de importação de bens para satisfação duma classe de proprietários e produtores cada vez mais abastada e sequiosa de luxos.

Embora o porto do Recife fique junto ao centro histórico da cidade, desse mesmo centro não se consegue avistar nenhum navio. A arquitectura da cidade barra o acesso ao mar. Só no passado as grandes casas de famílias abastadas, da periferia rural, eram voltadas para os rios e afluentes, por estes serem usados como vias de acesso. Mas com a expansão urbana e a introdução de vias de comunicação e transporte terrestres esse vínculo perdeu-se e foi ignorado.

A cidade vive de costas para o mar que a bordeja. Para os recifenses, o mar serve apenas para ir chapinhar em veraneios balneares. Esta indiferença nota-se até na gastronomia, onde predominam os pratos de carne e de tradição rural sendo o peixe quase completamente ausente. 

Mas como toda a regra tem uma excepção, salva-se o bairro de Brasília Teimosa. A população que obstinadamente o fundou, viu no mar um recurso de subsistência. Aí situam-se restaurantes para quem seja amante dos produtos do mar: peixes e mariscos.

Pela observação do estilo de vida e tradições da população recifense  digo que Recife não é uma cidade marítima, mas sim uma cidade de interior implantada na orla litoral.



Nota: Não me perguntem que cidade é a da foto ao cimo, pois não sei. Apanhei a imagem na internet e serve bem os meus propósitos. A de baixo sim, é Recife.

Recife