domingo, 3 de abril de 2011

O TROGLODITA

Por vezes perguntam-me se eu não gosto do Brasil. Eu gosto do Brasil, gosto do território e da natureza, gosto dos brasileiros e das suas qualidades. Mas não posso deixar de apontar o que vejo de errado em certas pessoas e em certas circunstâncias. E isso independentemente de ser aqui, na China ou nas Plêiades. Hoje, por exemplo, venho me lamentar da minha infelicidade em ter que conviver paredes meias com um troglodita que nem nas selvas mais inóspitas e bárbaras se encontram, senão entre humanos alarves e de deficiente moral, para já não falar na completa ausência de ética.

A besta, assistindo um jogo de futebol pela TV, berra loucamente num segundo andar dum prédio de condomínio de seis fogos, como se estivesse no meio duma claque num estádio com cem mil espectadores! Não, não estou a exagerar! Eu estou no piso térreo, de fones nos ouvidos, escutando rock em alto som e oiço os berros do demente, que nem um tresloucado num sanatório mental consegue berrar tão alto. E não me refiro a um grito ou outro de entusiasmo do festejo dum golo pela sua equipa de coração. Nada disso. A criatura berra loucamente desde o início ao fim do jogo.

Xiça! E depois ainda querem que eu não diga que num pais civilizado tal não seria permitido?! Ah, meus caros! Não sei que tem esta vizinhança nas veias, mas na minha terra já todos teriam telefonado para a polícia, para que viessem admoestar o desgraçado que se não sabe viver entre civilizados vá morar no deserto, pois na selva ainda espantaria toda a fauna selvagem. Não me venham dizer que “é a liberdade de expressão”! Isto não é liberdade de expressão coisa nenhuma. Isto é alarvidade e baixaria em níveis repugnantes. Isto é o mais completo desprezo e desrespeito pela tranquilidade alheia. Isto é a maior demonstração de má-vizinhança. Isto apenas demonstra um egoísmo atroz.

E este miserável é pai de duas crianças, que reconheço trata com esmero e carinho, pelo menos do que é possível observar durante as entradas e saídas do prédio. Que educação dará esta triste alma a essas crianças? Que exemplos de cidadania e boa vizinhança? Que bons modos de sociabilização irão aprender essas crianças com um pai que entra e sai do prédio aos gritos e sem dar um bom dia ou uma boa tarde para quem se cruze com ele nos acessos? Mas enfim, não deixa de se persignar cada vez que sai à rua; e tudo em nome de Cristo. O nome de Cristo serve mesmo para cobrir tudo. Pobre desgraçado que tão mau uso fizeram do teu legado!

Minha gente! Há uma coisa que é essencial aprender para se viver em cidadania; chama-se qualidade de vida. E qualidade de vida depende de uma boa e selecta Educação.

Eu amo o Brasil e sim amo os brasileiros, mas lamento que alguns poucos sejam tão reles que consigam estragar por completo a paz e tranquilidade que todos os outros gostariam de conhecer e viver.

9 comentários:

Serginho Tavares disse...

Infelizmente são estas coisinhas que me fazem desgostar do país que vivo...

Beijos amor

Cores da Crise de meia idade! disse...

Pois bem, homem de além mar.....Eu tinha de conviver com a mesma situação que voce! Felizmente a criatura teve um infarto e hoje esbraveja em algum cemitério. Boa sorte !

Paulo Braccini disse...

O pior querido é q isto não compõe uma minoria como vc diz ... vivo cercado destes tipos ... PQP!

Junnior disse...

Nossa, parece que fui eu quem escreveu isso. Aqui no prédio ou nos outros vizinhos têm também bestas iguais: berram, tocam cornetas sem parar e ainda ficam xingando uns aos outros à distância.
Nessas horas penso igualzinho a vc. Que maluquice é essa que a gente tem q aturar, meu Deus?
Bjs queridoo. Adorei a postagem.

Beth/Lilás disse...

Noosa, amiga, eu sinto o mesmo que você - repugnância por tais seres.
Pois aqui em Nikiti é a mesma coisa, principalmente em jogos do Fla-Flu.
O pessoal chega nas varandas aos berros e às vezes palavrões cruzam os ares nestes dias de jogos.
Graças ao pai, quase sempre estou na minha serra tranquila, onde a educação dos meus vizinhos e a paz reinante do local (talvez por ser mais frio), deixam-me completamente restabelecida para enfrentar o dia a dia desta cidade grande e mal educada.
Seu texto é brilhante e eu gostaria de ter escrito algo assim, desse jeitinho, muito bem falado e ao mesmo tempo dando um puxão de orelhas neste povo ignorante.
Infelizmente é isso o que estamos vendo no Brasil de ponta a ponta.
A era Lula fez um rombo na educação e para resgatar tudo isso, teremos muito trabalho pela frente.
Mas, chamar a polícia de nada adianta, primeiro porque não virão e segundo porque são exatamente iguais a esses idiotas também.
abs cariocas

LusoBoy disse...

Bah, poluição sonora é o que é :S.
Adorei a foto que arranjaste para ilustrar este teu desabafo :P.

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

perfeitamente compreensível seu relato. é o que causa mta complicação com os brasileiros aqui no Japão: a falta de noção de respeito, do espaço do outro e do próprio espaço.

não entendo o porque de se confundir alegria, entusiasmo com gritos, descontrole, avacalhação.
aqui acontece a mesma coisa, basta acontecer uma única coisa e pronto, começa a disputa pra ver quem grita mais alto de "alegria".

que mentalidade...

Jorge Oyafuso disse...

Minha vizinhança é tão eclética... uma família aqui ouve música gospel (esses dias um moleque de lá chegou tarde em casa e a mãe dele teve um xilique, e começou a receber o Espírito Santo, cê tem que ver!), outra um pouco mais acima, funk (argh), e agora tô ouvindo axé. E na rua da minha amiga, que ficam tocando forró? Eita, lasqueira!

António Rosa disse...

isto é muito pouco para me desgostar do Brasil, que amo.