quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O RESULTADO


O professor

Li no blog “Fora do Armário” um excelente texto-tributo (que aqui transcrevo) ao professor assassinado em pleno Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix em Belo Horizonte. O texto é também uma veemente denúncia e acusação.

O professor de Educação Física foi friamente assassinado, à facada, pelo aluno Amilton Loyola Caíres que se queixava de ter sido reprovado na disciplina leccionada pela vítima. Após detenção verificou-se que o jovem de 23 anos já tinha um historial de várias ocorrências policiais, embora sem prisão efectiva. Em 2006, com 19 anos foi interceptado por condução perigosa e manobras arriscadas na via pública, em 2008 foi denunciado por vários professores e funcionários escolares devido a ameaças constantes e simulação intimidatória de porte de arma, ainda nesse mesmo ano, com 21 anos de idade, agrediu o próprio irmão mais velho que acusava de lhe ter roubado R$ 600. Já em 2010 teve passagem pela delegacia, com registo de ocorrência, por lesão corporal após ter-se envolvido numa briga de bar, alegadamente por que se teriam enganado no troco. Depois voltou ao mesmo bar com dois amigos para espancarem o proprietário.

O assassino

J’acuse!!!

(Tributo ao professor Kássio Vinícius Castro Gomes)

« Mon devoir est de parler, je ne veux pas être complice.

(Émile Zola)

Meu dever é falar, não quero ser cúmplice. (...)

(Émile Zola)

Foi uma tragédia fartamente anunciada. Em milhares de casos, desrespeito. Em outros tantos, escárnio. Em Belo Horizonte, um estudante processa a escola e o professor que lhe deu notas baixas, alegando que teve danos morais ao ter que virar noites estudando para a prova subsequente. (Notem bem: o alegado “dano moral” do estudante foi ter que.... estudar!). A coisa não fica apenas por aí. Pelo Brasil afora, ameaças constantes. Ainda neste ano, uma professora brutalmente espancada por um aluno. O ápice desta escalada macabra não poderia ser outro. O professor Kássio Vinícius Castro Gomes pagou com sua vida, com seu futuro, com o futuro de sua esposa e filhas, com as lágrimas eternas de sua mãe, pela irresponsabilidade que há muito vem tomando conta dos ambientes escolares. Há uma lógica perversa por trás dessa asquerosa escalada. A promoção do desrespeito aos valores, ao bom senso, às regras de bem viver e à autoridade foi elevada a método de ensino e imperativo de convivência supostamente democrática. No início, foi o Maio de 68, em Paris: gritava-se nas ruas que “era proibido proibir”. Depois, a geração do “não bate, que traumatiza”. A coisa continuou: “Não reprove, que atrapalha”. Não dê provas difíceis, pois “temos que respeitar o perfil dos nossos alunos”. Aliás, “prova não prova nada”. Deixe o aluno “construir seu conhecimento.” Não vamos avaliar o aluno. Pensando bem, “é o aluno que vai avaliar o professor”. Afinal de contas, ele está pagando... E como a estupidez humana não tem limite, a avacalhação geral epidémica, travestida de “novo paradigma” (Irc!), prosseguiu a todo vapor, em vários sectores: “o bandido é vítima da sociedade”, “temos que mudar ‘tudo isso que está aí’; “mais importante que ter conhecimento é ser ‘crítico’.” Claro que a intelectualidade rasa de pedagogos de panfleto e burocratas carreiristas ganhou um imenso impulso com a mercantilização desabrida do ensino: agora, o discurso anti-disciplina é anabolizado pela lógica doentia e desonesta da paparicação ao aluno–cliente... Estamos criando gerações em que uma parcela considerável de nossos cidadãos é composta de adultos mimados, despreparados para os problemas, decepções e desafios da vida, incapazes de lidar com conflitos e, pior, dotados de uma delirante certeza de que “o mundo lhes deve algo”. Um desses jovens, revoltado com suas notas baixas, cravou uma faca com dezoito centímetros de lâmina, bem no coração de um professor. Tirou-lhe tudo o que tinha e tudo o que poderia vir a ter, sentir, amar.

Ao assassino, correctamente , deverão ser concedidos todos os direitos que a lei prevê: o direito ao tratamento humano, o direito à ampla defesa, o direito de não ser condenado em pena maior do que a prevista em lei. Tudo isso, e muito mais, fará parte do devido processo legal, que se iniciará com a denúncia, a ser apresentada pelo Ministério Público. A acusação penal ao autor do homicídio covarde virá do promotor de justiça. Mas, com a licença devida ao célebre texto de Emile Zola, EU ACUSO tantos outros que estão por trás do cabo da faca:

EU ACUSO a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa;

EU ACUSO os pseudo-intelectuais de panfleto, que romantizam a “revolta dos oprimidos” e justificam a violência por parte daqueles que se sentem vítimas;

EU ACUSO os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos, deixando-os livres para tumultuar e cometer crimes em outras escolas;

EU ACUSO a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranquilas, provas de mentirinha, para “adequar a avaliação ao perfil dos alunos”;

EU ACUSO os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, frequentados por alunos igualmente sem condições de ali estar;

EU ACUSO a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade;

EU ACUSO a lógica doentia e hipócrita do aluno-cliente, cada vez menos exigido e cada vez mais paparicado e enganado, o qual finge que não sabe que, para a escola que lhe paparica, seu boleto hoje vale muito mais do que seu sucesso e sua felicidade amanhã;

EU ACUSO a hipocrisia das escolas que jamais reprovam seus alunos, as quais formam analfabetos funcionais só para maquiar estatísticas do IDH e dizer ao mundo que o número de alunos com segundo grau completo cresceu “tantos por cento”;

EU ACUSO os que aplaudem tais escolas e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual e moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno “terá direito” de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever, tudo para o desespero de seus futuros clientes-cobaia;

EU ACUSO os que agora falam em promover um “novo paradigma”, uma “ nova cultura de paz”, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da “vergonha na cara”, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento;

EU ACUSO os “cabeças–boas” que acham e ensinam que disciplina é “careta”, que respeito às normas é coisa de velho decrépito,

EU ACUSO os métodos de avaliação de professores, que se tornaram templos de vendilhões, nos quais votos são comprados e vendidos em troca de piadinhas, sorrisos e notas fáceis;

EU ACUSO os alunos que protestam contra a impunidade dos políticos, mas gabam-se de colar nas provas, assim como ACUSO os professores que, vendo tais alunos colarem, não têm coragem de aplicar a devida punição.

EU VEEMENTEMENTE ACUSO os directores e coordenadores que impedem os professores de punir os alunos que colam, ou pretendem que os professores sejam “promoters” de seus cursos;

EU ACUSO os directores e coordenadores que toleram condutas desrespeitosas de alunos contra professores e funcionários, pois sua omissão quanto aos pequenos incidentes é directamente responsável pela ocorrência dos incidentes maiores;

Uma multidão de filhos tiranos que se tornam alunos-clientes, serão despejados na vida como adultos eternamente infantilizados e totalmente despreparados, tanto tecnicamente para o exercício da profissão, quanto pessoalmente para os conflitos, desafios e decepções do dia a dia. Ensimesmados em seus delírios de perseguição ou de grandeza, estes jovens mostram cada vez menos preparo na delicada e essencial arte que é lidar com aquele ser complexo e imprevisível que podemos chamar de “o outro”. A infantilização eterna cria a seguinte e horrenda lógica, hoje na cabeça de muitas crianças em corpo de adulto: “Se eu tiro nota baixa, a culpa é do professor. Se não tenho dinheiro, a culpa é do patrão. Se me drogo, a culpa é dos meus pais. Se furto, roubo, mato, a culpa é do sistema. Eu, sou apenas uma vítima. Uma eterna vítima. O opressor é você, que trabalha, paga suas contas em dia e vive sua vida. Minhas coisas não saíram como eu queria. Estou com muita raiva. Quando eu era criança, eu batia os pés no chão. Mas agora, fisicamente, eu cresci. Portanto, você pode ser o próximo.” Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo. Em qualquer lugar, dentro ou fora das escolas. A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor “nova cultura de paz” que podemos adoptar nas escolas e universidades é fazermos as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade.

Autor (não confirmado): Igor Pantuzza Wildmann (Advogado, Doutor em Direito, Professor universitário)

8 comentários:

Paulo Braccini disse...

Fato lamentável e deprimente como tantos outros por aí ... texto contundente e oportuno ... e assim o Brasil de Todos segue o seu curso, com uma Justiça tacanha e burocrática q de justa mesmo não tem nada ...

bjão querido

;-)

ps: compartilhando

Serginho Tavares disse...

Pois é meu amor é triste saber como está o sistema de educação neste país. Que mundo é esse onde um professor é assassinado (e sabe lá se existem tantos outros que não alcançaram a mesma notoriedade?), onde educadores são processados porque fazem o aluno estudar?
Onde está a ação? Estes crimes continuarão existindo até quando?
O texto é maravilhoso, muito bom que o repostou aqui meu amor!

Beijos

Sergio Viula disse...

Obrigado por multiplicar pensamentos como esse. Obrigado por se referir ao blog "Fora do Armário".

Abraço forte, amigão.

Sergio Viula
www.glslgs.blogspot.com

São disse...

O responsável maior da tragédia nem foi o assassino , mas sim quem não tomou as medidas exigidas face a tantos desmandos poe ele feitos ao longo do tempo.

Aqui em Portugal a vida de quem ensina, também está bem complicada!

bom resto de 2010 e feliz 2011, Amigo.

Hürrem disse...

Que tristeza a situação do Brasil amigo ManDrag, tudo isso relatado nesse texto é a mais pura nua e crua verdade da cara do Brasil! Parabéns pela divulgação desse texto! Espero que esse texto possa alcançar um número consideravel de pessoas, que as façam pensar e repensar sua forma de agir. Seria ótimo se um texto desses fosse primeira página de um site como o yahoo e tantos outros e não as manchetes que pude ver hoje: " Xuxa diz que Ayrton Senna foi amor de sua vida" que pobreza de espírito minha gente, que tristeza a burrice galopante do nosso país, onde as coisas realmente importantes não tem espaço na mídia! Abraços

Beth/Lilás disse...

Muito oportuno teres trazido para nós a leitura de texto tão profundo! Obrigada. Afinal, num país onde notícias absurdas como esta, estampam a primeira folha e logo são esquecidas, porque não darem continuidade com um artigo tão sério e bem escrito como este?!
Me entristece muito ver a que ponto estamos chegando e o marasmo dos que têm o poder nas mãos e nada fazem.
Se existe céu e inferno, esses sim terão que responder muito, pois têm como modificar as leis, punir severa e exemplarmente, mas parece que tudo acaba igual, ou seja, como
mais uma morte absurda de gente boa e inocente.
um abraço carioca

António Rosa disse...

Muito oportuno. Tristeza.

Diogo Didier disse...

Bela homenagem! não podemos deixar que fatos dessa natureza passem despercebidos!